sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Valsa dos Sonhos Tortos

Fim, ele disse. Fim, eu concordei. E atalhei que o fim dele era diferente do meu. Meu fim não permitia concessões. Era absoluto. Senti a vontade dele vacilar e meu íntimo espelhava o mesmo quadro. Não era aquele fim que eu queria. Na verdade nenhum fim chegava perto do que eu queria, porque eu não queria fim nenhum. Mas se fim era o consenso, que fosse do meu jeito.

Findamos. Ele se foi, triste como quem acaba de decretar o fim de algo. Eu fiquei, triste como quem acabou de ouvir o decreto da própria morte. E o expulsei da vida. Mas não de mim. Em mim ele ficou e eu me pus a contar o tempo feito compassos de valsa, um dois três, um dois três. O tempo descompassou, meu coração perdia a velocidade. Comecei a pensar se o fim dele se estenderia a mim. Se ele podia nos findar e tentar outros inícios, por que eu não conseguia findá-lo dentro do coração?

Um dois três, um dois três.

Uma pausa de mil compassos, por favor.

Já não havia mais acordes praquela valsa desajeitada. E olha que eu a considerava minha masterpiece. Mas o compositor sabe quando tem de parar, quando as dissonâncias fazem doer os tímpanos e quando as repetições criam em qualquer ouvinte o desejo do silêncio. Escrevi a nota final e mudei de partitura. E de clave.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

In nomine Pater

O ambiente era hostil – tudo ali parecia ter sido construído sob a matiz cinzenta e deprimente do caminho sem volta. Nem mesmo o padre, pleno da Luz Divina como dizia estar, conseguiu furtar-se de ouvir os ecos dos outrora usuários daquele cômodo sombrio, quando o adentrou.

Filho começou o sacerdote, sério, dirigindo-se ao único ocupante do recinto por quê? Por que destruiu uma vida desse jeito? Duas vidas? A daquela jovem... E a sua?

O homem à sua frente encarava, com os olhos muito abertos, o próprio destino.

Não havia mais vida, padre respondeu, rouco.

Vocês eram jovens. Cheios de futuro...

Eu pensava assim também.

E o que o fez mudar de ideia, filho?

O homem baixou os olhos. Os lábios finos distorceram-se num sorriso amargo.

O que o senhor faria se descobrisse que os últimos cinco anos da sua vida foram uma mentira? Que o que o mantinha vivo, que o que o alimentava, o que era o seu primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir, não passava de uma farsa?

...

Eu amei aquela mulher, padre. Amei-a com desespero, empreguei nisso todas as células do meu corpo. Eu abri mão de mim por ela, por nós. Transformei um quase nada em um quase tudo. O senhor sabe o que é isso?

O padre apenas fitou o homem. Mexia desconfortavelmente no rosário num sinal evidente de que não era ali que desejava estar – ouvindo as justificativas do desespero de um assassino. Certamente havia coisas mais gratificantes na vida de um clérigo, como planejar sermões ou degustar um bom vinho na sacristia. Mas sua vida era, acima de tudo, uma renúncia – uma renúncia que fizera de livre e espontânea vontade (não mencionando, claro, a influência materna), para ser um mensageiro da vontade divina. Deus conferiu-lhe obrigações para com aquele rapaz. Resignou-se a continuar ali, como um bom confessor, esforçando-se para transparecer um mínimo de compaixão.

Filho, eu não tenho realmente como saber...

Não, não tem, padre. Ninguém tem. Eu fiz mundos e fundos por ela. Casa, comida, roupa lavada. Tentei transbordar ao máximo tudo o que eu sentia por ela. Não é uma tarefa fácil, padre, mas também não é complicada. É só sentir, sabe? Quando você sabe que é real, você pode amar com a maior facilidade do mundo. E ela... Ah, padre, ela. Linda. O senhor deve ter visto. O sorriso mais atrevido. Mãos de fada. Sabia mentir, ela, ah, sabia. ele ostentava um olhar vidrado e seco, que não condizia em nada com seu sorriso débil. Tinha uma voz de sereia que fazia qualquer absurdo parecer verdade. Se ela me dissesse que tinha visto um óvni, eu teria acreditado.

Gotas de suor brotavam de suas têmporas. Ele contemplava a parede como quem havia encontrado o fim da linha e concordava com isso; mas suas mãos, trêmulas, se retorciam, como se fosse para ele uma terrível agonia estar na própria pele.

E na cama, ah, padre, na cama... Ela era uma deusa. Simplesmente perfeita. Sabia tudo. Ceder e resistir nas horas certas. Sussurrar. Ah, os sussurros daquela maldita! a voz embargada, ele falava depressa, como se quisesse espremer todas as palavras que pudesse reunir numa mesma frase. Ela me fazia acreditar que eu era bom. Eu acreditei, padre, que era um homem bom. O SENHOR SABE O QUE É ISSO?!

O religioso sobressaltou-se. Agarrou a cruz que trazia ao pescoço com força e moveu os lábios numa ligeira prece. Desejava, agora mais do que nunca, sair daquela sala triste e monocromática e retornar à sua Igreja, onde estaria protegido dos olhos alucinados daquele homem. Sabia que deveria dizer palavras de conforto, sabia que devia fazer com que aquele jovem se arrependesse, e no entanto não podia. A austeridade do lugar fazia com que o padre se sentisse acuado numa redoma de desespero – estar ali era quase sentir a mesma agonia que o rapaz. E o rapaz tinha o direito de sentir aquilo.

Ela dizia que me amava. Que eu era o homem da sua vida, que não precisava de mais nada. Com aquela voz que me fazia acreditar em tudo. E sabe o que ela fez, padre, sabe o que ela fez?

O padre fez que não com a cabeça, já imaginando a resposta, embora não quisesse ouvi-la.

Ela me traiu! Ela me traiu, padre o homem respondeu, gargalhando alucinado e não uma, ou duas vezes, mas todos os dias em que estivemos juntos! O senhor não imagina o quanto é... Humilhante...

Chegar mais cedo em casa e flagrar uma cena... Deplorável... No chão do seu próprio quarto. E sabe o pior, padre? Sabe o pior? ele começou a rir com mais vontade ainda eles estavam numa posição que ela nunca me deixou tentar antes! Dizia ser libertina demais para ela!

Ele encarou, pela primeira vez, o sacerdote. A aridez em seus olhos fez o padre estremecer.

E foi como se algo tomasse o meu corpo. Eu não podia

atirar nela, não, padre. Ela tinha que ser destruída à proporção que eu fui destruído ao vê-la em cima de... De outro homem. Eu tinha que causar a mesma dor que ela me causou. Porque foi uma dor física. Eu senti como se meu coração fosse espremido por uma mão de ferro... Fui à cozinha, peguei uma faca... E fiz. Não sei como. O amante fugiu, o desgraçado. Mas eu não me importei com ele. Era ela que me devia contas. Era a ela que eu queria matar. Eu queria ver a luz deixar os olhos dela. E, quando terminei... Quando consegui... Pensei em me matar também. Já estava tudo terminado mesmo. Mas parei, padre... Se eu me matasse, teria que encarar aqueles olhos malditos outra vez no inferno. Eu não suportaria.

O religioso fez o sinal da cruz ao mesmo tempo que um oficial, de vestes azul-escuro, adentrou a sala.

Seu tempo acabou, padre. falou, ríspido.

Tudo bem, filho, já terminei. o padre encarou mais uma vez o assassino, num olhar que desejou ser claro – compreensão. E penitenciou-se em silêncio. Aquilo era pecado.

Quando o padre saiu, o condenado foi conduzido à maca onde receberia a dose letal de barbitúrico e tiopentato de sódio.

Eu já morri. ele disse, ao sentir o braço ser perfurado.

Minutos mais tarde, quando o padre chegou à igreja, benzeu-se, fez o sinal da cruz, acendeu uma vela à Virgem Maria e sussurrou, consigo mesmo:

Bendita a hora em que fiz voto de castidade, minha Virgem. A mulher é um ser vil. Cruzes!

domingo, 8 de novembro de 2009

Causa e efeito

Faz tempo que “nós dois” não existimos mais. Me são raros pensamentos de você ou de algo relacionado ao que fomos. “Nossas” canções voltaram a ser somente canções, que já dediquei a outros ‘alguéns’ por quem me apaixonei depois de você. Em suma, eu te esqueci.

Mas eu só te esqueci porque estou longe de você. Eu te afastei de mim pra não ter que te ver e, com isso, lembrar de tudo o que me fazia te amar.

Se eu te visse sempre, se eu permitisse que você figurasse na minha vida e na minha mente, eu iria lembrar todos os dias da sua risada que te fazia parecer uma criança e que deixava covinhas nos dois lados do seu rosto. Eu me lembraria do modo displicente com que seu cabelo anelado cai às suas costas e que sempre brigávamos quando você os cortava. Brigas de leve que acabavam em

beijos seus nos meus ombros, dizendo "seu bobo! Eles vão crescer de novo". Se eu te visse sempre, lembraria da maciez da sua pele azeitonada e de como eu gostava quando você roçava o nariz no meu pescoço. Eu me lembraria do seu olhar atrevido quando eu negava um pedido seu, e da sua insistência travessa que eliminava qualquer possibilidade de “não” das minhas ideias. Eu lembraria da sua voz rouca e grave ao acordar, que virava branda e doce quando me queria e assumia um tom quase infantil quando você não queria pensar. Eu me lembraria de como suas sobrancelhas se arqueiam num ângulo estranho quando você pensa demais. Eu me lembraria de como virávamos as noites conversando sobre coisas cada vez mais aleatórias e de como ríamos, surpresos, de nossas ideias tão loucas quanto compatíveis. Nessas horas tínhamos a certeza de

que era sorte demais termos encontrado um ao outro.

Eu me lembraria de tudo isso, me lembraria do porquê de te amar tanto e voltaria a te amar. Porque amor não acaba, só adormece – se esconde nalgum vão remoto do coração esperando a hora de arrebatar tudo para si outra vez. E outros amores acham lugar pra surgir.

Com você longe de mim, eu te esqueci. Com você longe de mim, eu não te amo. Mas só com você longe. Então é melhor que você fique onde está.

domingo, 1 de novembro de 2009

Tao

(Referências bastante claras ao fim do texto... :))


Sol.

Lua.

Dia.

Noite.

Luz.

Escuridão.

Casa.

Rua.

Vício.

Virtude.

Medo.

Coragem.

Felicidade.

Tristeza.

Monocromático.

Multicolorido.

Chão.

Teto.

Cigarra.

...?

Vamos, cigarra.

Formiga.

Bom!

Mau.

Não, não era pra você dizer o antônimo agora. Foi um elogio. Mas tudo bem, você está indo muito bem...

Obrigado. Continuamos?

Bem.

Mal. Com L.

Sul.

Norte.

Azul.

Amarelo.

Você é um oponente e tanto!

Obrigado.

Por nada... Veneno.

Cura.

Luxúria.

Castidade.

Amor.

...

O que foi? Este é um contrário óbvio, filho. Ódio.

Nem tanto, pai...

Como assim?

Eu gostava de uma menina lá da escola, sabe? A Aninha. Ela sabia disso e, para me provocar, beijou meu melhor amigo. Foi o primeiro beijo dela, pai. O primeiro beijo que ela sabia que eu queria dar nela. E agora eu a odeio.

Então. O ódio é o contrário do amor.

Não é, pai... Eu gosto dela. Apesar de odiá-la. Ela ainda tem espaço nos meus pensamentos e no meu coração, ainda que seja numa lista negra, sabe? Eu procurei no dicionário e ódio quer dizer ‘raiva inveterada e absoluta’, e é o que eu sinto, mas eu só sinto isso por ela porque eu a quero pra mim, comigo, e não posso tê-la porque ela é cruel.

E qual é o contrário de amor?

Então, pai... Eu saberei que não a amo mais quando passar por ela como se ela fosse parte da decoração. Um pedaço do ambiente. Quando ela for invisível como uma ameba. Quando eu não me importar se ela estiver mal, e ao mesmo tempo não me afetar se ela estiver bem. O dicionário diz que isso se chama indiferença. Procurei por alguns minutos até encontrar.

Você descobriu isso lendo apenas o dicionário?

Não, pai, eu descobri amando... “O dicionário nunca amou”.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ruptura.

A madrugada ia alta. Metade da cidade dormia o sono dos justos – entregues a Morfeu, à espera de, no mínimo, um sonho bom que desanuviasse seus semblantes sonolentos quando chegasse a hora de despertar. A outra metade não dormia – cantava, bebia, gritava, fumava, amava, ria, furtava, transava, cheirava, desfalecia. Perambulava. E morria.

Ele não sabia aonde ia, nem porque ia, apenas deixava o ruído dos seus passos secos e o tilintar do punhado solitário de moedas que trazia no bolso ecoarem na noite. Algumas tristezas lhe pesavam na mente. Ele esperava, com sinceridade, que uma boa dose de aguardente aliviasse o fardo.

Encontrou a moça numa das esquinas de seu caminho improvisado. Ela encolhia-se na penumbra como se quisesse passar despercebida, ou como se desejasse realmente fazer parte da paisagem e nada mais. Ergueu os olhos quando ele passou, hostil, mas baixou a vista instintivamente para a garrafa de vidro aninhada em seu colo. Ele a encarou por longos minutos antes de, com um suspiro, falar.

Eu perguntaria a você o que uma moça tão jovem faz numa rua deserta à essa hora... Mas acho que minha intromissão não me dá direito a respostas, não é?

Ela apenas envolveu a garrafa nas roupas, sustentando-lhe o olhar com obstinação. Seus olhos verbalizavam o que o silêncio da rua traduzia – ele não era bem-vindo ali. No entanto, o escuro e as circunstâncias sopraram no rapaz alguma insolência no juízo. A noite ia avançada; a rua era pública; a jovem era bonita – ainda mais com toda aquela raiva estampada nos olhos; e, o mais importante, aquela garrafa continha um calmante para os nervos, uma chave para o esquecimento temporário dos problemas que faziam dele um sonâmbulo-insone-insano.

Sabe ele falou, acostando-se ao muro baixo, em frente à ela está uma bela madrugada. Eu pretendia comprar um bom litro de cachaça e tentar afogar as minhas mágoas... Mas encontrei você, sozinha, encolhida, com uma garrafa no colo. Acho que é uma noite bonita demais pra você passá-la sozinha, não é?

Silêncio.

Ah, Deus. Mais uma madrugada, mais um monólogo. Ao menos, dessa vez não falarei com as paredes... Terei alguém de verdade. Talvez eu pareça menos autista falando sozinho com uma moça.

Ela riu. Sua risada era quase um paradoxo – tão sem alegria que soava como um lamento.

Você não vai parecer autista, mas vai parecer idiota.

Então você vai fazer um favor à minha reputação e vai conversar comigo?

Por que eu faria isso? É madrugada. Não tem ninguém na rua.

Talvez pelo meu magnetismo, ou minha simpatia...

Ou pela sua impertinência, correto? a nota de irritação na voz dela era menos audível agora.

Eu diria pela minha insistência. Ou pela sua educação refinada.

Você supõe coisas demais. ela desviou os olhos do chão para o rosto dele, por um momento, e depois para o céu.

Os olhos da moça passaram a ostentar uma apreensão triste. Ela se mexeu e a garrafa escorregou de seu colo, fazendo um ruído metálico ao aterrissar na calçada.

Cuidado com isso... A uma hora dessas, é ouro líquido, sabe? falou ele, observando-a.

Ela mirou a garrafa, cujo líquido balançava ao sabor do impacto recente.

Talvez não seja... Eu achei que fosse, mas talvez... ela balbuciou, a voz fraca.

Não me diga que você é iniciante! ele exclamou, sorrindo, adiantando-se para a garrafa.

Não!! Eu não sou iniciante. Eu só... Estou esperando.

Hm. Esperando. Seja feita a vossa vontade, então. ele devolveu a garrafa para a jovem, que voltou a agasalhá-la nas roupas.

Silêncio.

— Por que você está aqui?

— Para esquecer.

— Esquecer?

— Cada noite, tento esquecer cada dia. É uma lógica simples. — ele sorriu, amargurado.

— E ineficaz, pelo que eu vejo.

— Mas eu sigo tentando. Não tenho nada a perder.

— Sendo assim...

— E você? Por que decidiu recorrer à madrugada?

— Não sei. Pra fugir, eu acho.

— Ótimo... Resumindo, somos dois covardes, não? — ele deu uma sonora gargalhada. — Um tenta esquecer, outra tenta fugir... E no fim... — o sorriso dele esmoreceu — sabemos que é inútil.

Ela acariciou, inconscientemente, a garrafa embrulhada em suas vestes. “Talvez não seja tão inútil assim pra mim”, pensou. “Talvez os meus meios de fugir sejam melhores que os seus meios de esquecer... Mas será que eu tenho que escolher esse caminho?”.

Ela sentia a vontade vacilar. Havia se refugiado ali por ter perdido tudo o que lhe tivera

significado – família, namorado, amigos, casa. Era culpada e por isso escolhera, sem hesitar, a desistência. E, no entanto, agora, sentia cada vez mais vontade de conversar com aquele estranho; confidenciar-lhe segredos, saber-lhe os motivos. Sentia-se tentada a adiar seus propósitos, ou desistir deles. Começava a pensar se realmente havia desejado aquilo ou

se tudo não passava de um capricho imediatista. E, por fim, julgou-se boba pelos desejos infantis que conjurava na mente e no coração.

Ele, por sua vez, esqueceu. No caminhar das horas, ali, conversando com a bela desconhecida, esqueceu de tudo o que o fazia querer embriagar-se de aguardente. Os olhos tristes da moça assumiram o primeiro plano em sua atenção, a voz baixa e grave com que ela falava, as mãos torcendo-se, nervosas, no colo dela. Atração irremediável.

A única coisa que ele não esqueceu foram seus impulsos levemente alcoólatras.

O sol não era nada mais que uma linha alaranjada no horizonte quando eles silenciaram. Ela, numa letargia sonolenta, apoiava a cabeça sobre um dos ombros, os olhos semicerrados. Ele aproximou-se, prevendo a falta de reações da companheira de serão, sorriu de leve e beijou-a nos lábios. Depois, com a delicadeza de quem manuseia porcelana, ele tirou a aguardente das vestes dela, abriu a garrafa e tomou um longo gole. Apertou os olhos.

Ela só despertou horas depois. Deparou-se com a garrafa aberta, na horizontal, envolta por uma poça de líquido transparente – aguardente e o veneno que ela escolhera para trilhar o caminho sem volta da desistência – e o gentil andarilho que conhecera naquela madrugada estendido ao seu lado. Morto.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

See ya.

Pensei em dizer milhares de coisas naquele momento, que eu sabia ser o último a poder ser chamado de nosso - em que eu era tua e você era meu. Eu procurava palavras, palavras que não soassem estúpidas, piegas ou que não te fizessem julgar-me louca. Foi inútil. Elas que sempre me foram a companhia mais insistente eram também traiçoeiras e fugiam-me quando eu as procurava ansiosamente, beirando o desespero de quem não quer ser esquecido.
Diante do peso daquele momento, o último de tão poucos, emudeci.
A vida é traçada à régua e compasso pelo milenar ritual do princípio, do meio e do fim. Nada pode fugir a essa regra. E ainda assim pareceu-me tão estranho que nosso destino fosse o 'nunca mais', simples e definitivamente. Aquele adeus era prematuro demais para ser real, meu bem... Eu queria te ver de novo. E não sei se há alguma explicação compatível com o sentimento que você me forçou a criar, de forma tão rápida, tão inesperada.
Mas você me disse, a expressão nos olhos escuros quase idêntica à minha, "não é um adeus. É um até logo. Eu volto. Tenho certeza que volto. Está bem?". Eu ri meu riso que era ao mesmo tempo descrente, triste, encantado, e aquiesci.
Talvez você volte mesmo, não tenho dúvidas. Mas talvez o 'nós' que existiu fique encerrado no nosso adeus, para sempre.
O vento marinho açoitava meus cabelos e uma chuva fina e gelada nos cobriu. Você segurou meu rosto como se segurasse algo muito delicado, contornou meus lábios com suavidade e me beijou.
"See ya", você sussurrou.
Fiquei com seu gosto na boca pelo resto da noite.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Arquivo Permanente

(Eu sei que havia dito, no post anterior, que passaria a falar sobre a realidade. Se me permitem, vou adiar um pouco a dita cuja. Por motivos de força maior, postarei um texto relativamente antigo. Aliás, em arquivologia, o termo 'arquivo permanente' é utilizado para especificar documentos que possuem valor histórico, probatório, informativo e de investigação. Pra mim, é um pouco de tudo isso...)


Eu escrevo. Um escrever assim, sem razão, vomitar o que comprime o peito e só. Um escrever que me leva de encontro à agonia em perceber

o quão supérfluas e insuficientes se tornam as palavras pra dar sentido ao que o coração teima em sentir a cada pulsar. Eu escrevo e de nada me adianta... A agonia não passa, a solidão persiste, o silêncio me amortece. Porém, algo tão etéreo quanto essas desesperadas emoções me impulsiona a escrever... já não sou dona de mim. Estou contida nas palavras e as palavras me contém.

Escrevo como que para prestar contas do tempo perdido. Escrevo na esperança de, quem sabe um dia, passar os olhos por essas linhas novamente e rir do meu antigo drama, com a nostalgia de quem já convalesceu estampada nos olhos.

Eu escrevo... Como se devesse a mim mesma essa empreitada. Como se tudo fosse mudar ao longo destas linhas... Mas nada muda. Ainda estou viva. E você, alvo das palavras, alvo do coração, desfila no mundo, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe...

Eu escrevo como se essas linhas fossem te conjurar para perto de mim... para perto do meu coração.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ventos da Mudança




Não é apenas por estar escutando Winds of Change agora. É que, dia desses, enfurnada diante desse cubo luminoso chamado monitor, lendo e relendo blogs dos amigos, pensei. Repensei. Acho que talvez esteja na hora de despir-me um pouco do eu-lírico, ainda que ele carregue um tantinho, ou um bocado, de mim. Talvez seja a hora de vestir a camisa da profissão que escolhi e exercitar meu poder de síntese e crítica - isso se o tal poder realmente reside em mim. Não faço ideia. Quero experimentar. Talvez seja a hora de deixar este sedutor (porém volúvel) mundo da ficção e dedicar meu tempo à realidade dos fatos, não?
Escrevo agora como Ludmila, futura jornalista (não que isso seja grande coisa, levando em conta as atuais circunstâncias...).

Até mais. :)

(ah, preciso ser completamente sincera com vocês. Também ando sem inspiração pra ficção. Vergonhoso, não?)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Conto de fadas de um amor virtual

— Sabe que eu não pensei que você fosse assim tão alta?
— Alta? Eu não sou alta.
— É mais alta do que eu previa. E mais bonita, também. Mas o seu sorriso é do jeitinho que eu imaginava.
— Como?
— Sincero.
— Você adivinhou meu sorriso?
— Sim. E adivinhei que você ficaria vermelha se eu te dissesse isso.
— Puxa, eu sou tão previsível assim?
— Talvez porque eu te imaginei durante muito tempo, não? Talvez seja por isso.
Apesar do frio e do vento, eles tomavam sorvete, enquanto caminhavam pela orla. Ela, corada, mantinha o olhar no horizonte acinzentado, observando o quebrar das ondas. Ele mantinha os olhos nela.
Em algum dia no tempo haviam sido um casal. Mas isso era quando milhas e milhas e uma tela de plasma os separavam. Quando, entre tantos conterrâneos, o coração da jovem elegeu esse desconhecido cuja existência ela não saberia, não fosse a internet. Quando, sorte ou azar, ele também a escolheu, além de cabos e conexões e fibra ótica.
Mas o tempo não lhes foi benevolente. A Vida reclamou sua aprendiz – ela, uma adolescente sem muita experiência, que odiava dizer adeus, mas tinha, à porta, milhares de novos sentimentos chamando-a a conhecê-los. Ela não podia ignorá-los. Ele, por ser mais velho, algumas ex-namoradas no currículo, entendeu, achou justo. À sua pequena – era assim que ele a chamava – disse: “você merece alguém que te ame muito, e bem de perto. E que goste tanto do teu sorriso quanto eu”. Ela, triste, aquiesceu.
À época, tempo e distância disseram não. E tudo seguiu seu curso. Garotas e garotos depois, quando nenhum dos dois desavisados esperava o sorriso do acaso, eis que as circunstâncias consentiram. E ela viajou para longe. E encontrou-o.
Ela só conseguia pensar na ironia do destino – ou em seu hábito peculiar de escrever nas entrelinhas. Agora ele pertencia a outra, e ela, que desde seu último relacionamento recusava-se a deixar qualquer sentimento assumir grandes proporções, encontrava-se cercada por um muro de reservas e auto-proteção. De perto, ele era mais bonito e mais hipnótico do que ela supunha. Por fotografias ele não parecia tão magnético.
Eles não passaram mais que algumas horas juntos. Ela voltaria aos amigos; ele voltaria à amada. Mas nem por isso impediram-se de, discretamente, analisarem-se mutuamente. Ela notou a segurança do rapaz e seu empenho em fazê-la sentir-se segura também. Notou o sorriso terno com que ele a encarava. Ele, por sua vez, notou que ela baixava os olhos sempre que ele lhe sorria. Quis tranquilizá-la, mas a timidez dela era tão... O meio-sorriso da garota combinava tão bem com o rubor em seu rosto!
Fosse este um conto de fadas, eles teriam se rendido ao momento e ficariam juntos, ainda que por um dia. Mesmo sob o risco triste e doce da saudade, mesmo configurando o crime de traição. Mas esta é uma história virtual. Após um longo abraço, eles seguiram rumos opostos. Sem tristeza.
Com a jovem, ficou a gratidão. Talvez ele fosse o único a quem ela era encantadora, simplesmente por ser. Isso bastava aos dois.
— Te vejo online!
— Pode apostar que sim.
:)

sábado, 25 de julho de 2009

Carta de amor de uma cética

"Sabe,
Nós não fomos, nem de longe, feitos um para o outro. Nunca vi um par tão ímpar; água e vinho, noite e dia. Aos que me vêm com a velha máxima de 'os opostos se atraem', eu rebato com um veemente 'não creio em fórmulas prontas'. Não... A explicação não pode ser tão banal, meu caro.
Eu sempre estive com caras que julguei legais por dividirem comigo gostos, trejeitos, manias e creio que eles também me supunham legal por isso. Ah, os inícios eram lindos! Dignos de roteiro cinematográfico, mesmo. Cada ponto em comum descoberto era celebrado com um sorriso e um arregalar de olhos: 'puxa, como combinamos!'. Mas, com o tempo, tudo isso tornava-se monótono. O antigo olhar de surpresa dava lugar ao tedioso olhar de 'surpreenda-me, pelo amor de Deus'. Eu cansava de amar meus espelhos. E eles cansavam de mim. Parti o coração de uns dois quando fugi antes que eles se fartassem, também uns dois me partiram o coração, mas em geral era cansaço mútuo. Afinal, que egocentrismo amar sua própria imagem, não?
E aí me surge você. Devo confessar que, à priori, não fui muito com a sua cara. Te achei meu avesso demais, se é que você me entende. Aliás, não fosse aquela bendita aguardente, meu bem, não sei se teríamos passado de educados 'oi, olá, como vai' que a obrigação de estar num ciclo de amigos em comum criou. Eis que por acidente eu provei tua outra metade, o meu completo oposto.
Quem me bombardeia com o papo de 'ah, ele te completa' conta com meu imediato asco. Não. Ninguém me completa, não a mim, uma escorpiniana amante do amor-próprio. Eu aprendi a me bastar. A vida me ensinou. Não. Sou mais adepta ao 'oposto complementar'.
Você veio e me pôs numa montanha-russa, onde, constantemente, eu sinto o arrepio de não saber o que vem depois. Você foge feito um condenado de qualquer coisa que comece a vestir-se de rotina. E eu, sempre tão prática, sempre tão metódica, acho graça nisso. Sobra em mim a calma que te falta. Falta em mim o carisma que te sobra. Talvez por isso eu me sinta tão bem. Talvez por isso eu te peça cinco minutos sempre que você tem que ir. Talvez por isso insinue-se na minha vontade um 'eu te amo' que eu preciso verbalizar.

Eu te amo".

terça-feira, 30 de junho de 2009

Pernas longas.

O sorriso dele não podia exibir maior satisfação. Acomodado sobre a desordem dos lençóis, ele a observava, apreciando a lentidão com que ela se vestia, sentada na cadeira em frente à cama. Percebendo o olhar dele, ela sorriu.

— Você fica linda nua, sabia? — ele disse, os braços displicentemente cruzados atrás da cabeça.

— É? — o sorriso dela se alargou. — Pareço pretensiosa ao dizer que sei disso? Porque você repete umas dez vezes sempre que nós...

Ela completou a frase com um arquear da sobrancelha direita que sabia que o agradava,

e muito. Subiu pelas pernas a calcinha rendada.

— De forma alguma. Parece ainda mais linda. E mais desejável. Ande, não vá agora.

— Ah, meu amor, é preciso. O tempo que passamos juntos foi maravilhoso. Sempre é maravilhoso. Mas quem chama é o Dever. E, junto dele...

Ele sentiu o sorriso vacilar enquanto a observava curvar-se e amarrar

a sandália na perna, impecavelmente lisa e esguia. Ela imprimiu às palavras um to

m e um sentido desconfortavelmente ambíguo e lânguido. Passado um minuto silencioso, em que ele apenas contemplou sua pequena beldade fechar, um a um, os ganchos do espartilho de

cetim e renda negra, o rapaz decidiu achar que era apenas impressão sua. Para disfarçar,

estendeu a mão até o aparador, escolheu sua mais cara garrafa de uísque, pegou o copo que repousava no criado-mudo e encheu-o. O gesto não passou despercebido a ela, que levantou-se, sorrindo.

— Sabe — ela começou, provocante — sempre fui uma moça muito... Romântica. Desde criança, decidi que ficaria pra sempre com alguém que me arrebatasse desde o primeiro olhar.

Ele sorveu a bebida num só gole e sorriu, presunçoso.

— Ah, é? Que me diz destes sonhos agora, bela? — respondeu, a voz empastada.

Enquanto vestia, com notável elegância, o vestido vermelho, cingido de botões do decote à barra, no meio de suas coxas, ela riu, um riso que misturava ironia e pena. Que ele também decidiu achar que eram frutos de sua imaginação. O que ele não notou, e não por decisão sua, mas por descuido, foi o pó branco no fundo de seu copo.

— Eles continuam de pé, Maurício. Por isso, quando eu cruzar aquela porta, não voltarei mais.

E, mais uma vez, ele decidiu achar que era brincadeira. E o sono que fazia suas pálpebras insuportavelmente pesadas, ele julgou fruto do cansaço – Simone era habilidosa.

— Ora, meu bem — ele replicou, entre um bocejo e outro — não seja boba. Estamos arrebatados um pelo outro. Um ano. Desde que nos conhecemos, no bar. Nunca mais nos separamos desde então. Você... Você disse que me ama.

— Sabe que mentir é fácil? — ela disse, num tom de voz levemente sádico. — Eu menti, Maurício, uma, duas, mil vezes. Menti quando te disse que te amava. Menti quando te disse que tinha muito dinheiro. Menti quando te disse que não queria o seu. Menti cada orgasmo. Menti. Sei muito bem alongar as pernas da mentira, sabe? Mas... — e ela ergueu a mão esquerda, a palma voltada para o seu rosto, de modo que ele pudesse ter uma boa visão do grande anel de brilhantes em seu anular. — As recompensas... Bem...

Subindo o zíper do vestido, ela apanhou a bolsa, abriu-a, retocou seu batom carmim e observou-o, dominado por um sono tão terrível que minava-lhe as forças.

— Você é ruim de cama, Maurício, ah, você é. — ela disse, antes de sair pela porta e trancá-la por fora.

sábado, 27 de junho de 2009

Ele não sabe não, viu?

Era uma vez...
Ele achava "era uma vez" um jeito meio estúpido de começar uma história. Na verdade, eu também. E como esta é a história dele, e a história dele ainda é, e faz parte da minha - como duas retas paralelas que um dia cansaram do caminho e resolveram se cruzar - começarei de um jeito que ele com certeza aprovaria. Ou não.
"Olha só que cara estranho que chegou".
Aparentemente, ele não é tão estranho assim. Nem todo mundo é transparente feito vidro. Ninguém imagina o quão acirradas podem ser as tempestades que cada um abriga dentro de si. Mas eu conheci esse "cara não tão estranho". Nada supus a respeito dele - se suas águas seriam revoltas ou cristalinas feito um espelho. Nada, nada. Deixei o tempo me mostrar o tipo de marinheiro que ele era.
O oceano em que ele navega é instável. Às vezes, as ondas quebram com tanta violência que chegam a assustá-lo, ferindo as águas outroras lisas. E ele tenta mudar, gosta de ocultar a instabilidade num sorriso coalhado de indecisão. Mesmo sem querer, exibe um coração à sua frente - diante até mesmo do que a razão escancara - e não o divide com ninguém. Talvez com o acaso... O acaso é amigo do coração, não? Até cogitei em pedir a ele para erguer suas vidraças e me mostrar o que oculta.
Silêncio às vezes fere. Mas esbarrei com um punhado de talvezes pelo caminho, e entendi. Ele não sabe como fazer, talvez. O mundo anda hostil. Ou talvez ele goste é do estrago. Afinal, faz parte dele ser assim.
Às vezes, o vento vem contra o cais... O acaso se esconde e leva com ele qualquer perspectiva de amanhã. E o garoto se pergunta "e o amanhã, cadê?", como quem fraqueja, hesita, dá meia-volta. Sei que, no fundo, é apenas uma fuga que de covarde não tem nada. A gente sente quando algo tende a dar errado. Pode ser que fantasiemos um pouco, que subestimemos a nós mesmos, ou superestimemos as circunstâncias, mas sim, acontece. E, nestas raras vezes em que o destino nos dá a feliz chance de optar, desistimos do que pode falhar. Natural. A vida se encarrega de nos ensinar a apontar pra fé e remar. E ele sabe muito bem como fazer, e, no balanço do mar, caminha num baque só: se atira contra a maré, sem medir tempo nem medo. E todo balanço que dá nesse navegar, ele navega. Mas ele sabe também - e se não sabia, passa a saber agora - que eu não vou soltar da sua mão. Mesmo num silêncio que pode ser traduzido como "estou aqui". Porque é assim calado que ele vai ser coroado rei de si.

(Amizade não é coisa que se explique ou entenda - isso a gente deixa pra Freud. Resta a nós apenas viver o que o destino reservou. Feliz aniversário, come-dorme da boba da peste! Amo você (L))
(Referências claras à banda Los Hermanos).

domingo, 21 de junho de 2009

Ao Jornalismo.


Não preciso mais questionar a cegueira da Justiça. Na verdade, até consigo entendê-la melhor. Sim, ela é cega - não porque trata todos com equidade ou isonomia, mas porque fechou os seus olhos à razão. Digo mais: cega e surda. Infelizmente, o mutismo, ainda que temporário, foi deixado a nós, comunicólogos e aspirantes, que tivemos a dignidade, o valor e a credibilidade assassinados junto à obrigatoriedade do diploma, já que a decisão do STF - lamentada inclusive pela OAB - é tão suprema quanto ele mesmo.
Que podemos esperar de quem elege o Jornalismo a atividade "meramente intelectual"? As evidências respondem por nós. Analisem a trajetória de nosso Excelentíssimo Ministro Gilmar Mendes. Vejam o quanto ele parece compreender o sentido da palavra república (res publica, coisa do povo) afirmando que "o povo não influencia o STF". Meu conhecimento acerca das Ciências Jurídicas é muito limitado - fruto de um muito displiscente semestre de faculdade de Direito conciliado com a faculdade de Jornalismo - mas é suficiente pra saber que uma democracia significa a soberania do povo, caro Ministro, e é ao povo que o STF deve servir.
Em face do que já foi dito here, there and everywhere, não mais argumentarei. Só digo que não acabou. Perdeu-se a luta, não a guerra.

Outros bons textos acerca do assunto:

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dia dos namorados.

O dia dos namorados mais parece uma provação. É o dia de os solteiros não-convictos - grande maioria, diga-se de passagem - balançarem-se numa ciranda, num lamurioso discurso de que há qualquer coisa de errada com eles e que é seu destino líquido e certo a companhia da "titia". Não os condeno. A tal "dança da solidão" (desilusão, desilusão...) já me teve como bailarina principal um sem-fim de vezes. A questão é que somos muitos. Os solitários. As panelas à espera de sua tampa. Estatisticamente falando, os majoritários. E não temos uma data só para nós. No aspecto financeiro da coisa, seria até absurdo haver um dia dos solteiros. Se fôssemos presentear cada solteiro e solteira que conhecemos, a quebra da bolsa daria lugar à quebra do bolso. Enfim...
A data não me agrada. De todas as estratégias de venda, talvez esta seja a que mais me irrita. E não é porque meus envolvimentos não coincidem com o mês de junho. Já ganhei meus chocolates,
sim. É que uma certa irritação paira no ar. A farra vira questão de honra - ficar em casa no dia dos
namorados, jamais! A vida parece mais injusta. Ter alguém vira sinônimo de solução dos problemas. Há, nesta data, como em outras tantas (mas por motivos diferentes), mais insatisfeitos que satisfeitos. Encalhados Solteiros versus comprometidos, solteiros convictos e comerciantes com um gordíssimo lucro.
Às vezes a gente tem que se bastar, não? Juntar os amigos solteiros e ir jogar papo fora num sushi bar, numa
ode à vida e ao porvir - este sujeito que vive a nos causar o arrepio de ignorar o que vem à frente. Vai que o Destino cruza uma esquina - empoeirada, destas que a vida esquece e o acaso então abraça - e force o Inesperado a unir útil e agradável.

Se ofendo com a generalização, perdoem-me. Me tomei como exemplo pra escrever. Me despi do eu-lírico por hoje, apenas por hoje. Feliz dia dos namorados.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Revenge.

— Senta. E escuta.
Ele acomodou-se de qualquer jeito na poltrona. Um tanto desconfortável, é verdade, mas esse detalhe não tinha a menor importância. Não naquele momento, onde nem o recanto mais aconchegante do mundo seria capaz de lhe curar a tensão. Ainda mais porque a causadora estava ali à frente. Vestindo de pedido o que, com certeza, era uma intimação. Aqueles olhos metálicos não enganavam ninguém.
— E então? — ele arriscou.
Ela caminhou até a janela. Espalmou as mãos no parapeito, sorveu o ar frio daquele fim de tarde. Deixou que o vento lhe acariciasse os cabelos, antes de virar-se e enunciar, num tom de voz indefinido:
— Você mentiu pra mim.
Ele ergueu as sobrancelhas. O mesmo discurso, novamente? Já não haviam posto tudo em pratos limpos?
— Olha, eu...
— Shhh. Ouça.
Tamborilando os dedos no parapeito da janela, ela olhava as próprias unhas, muito provavelmente sem enxergá-las.
— Você mentiu pra mim quando disse que ia passar.
— Hã?
Ela apenas fitou-o, impassivelmente, calor algum emanando de seu corpo ou de seus olhos. Fria. Ele não demorou muito a encontrar uma conclusão. Então ela... Não o esquecera! Soubera de seu recente envolvimento com outra e o queria de volta! O enlaço inesperado de seu ego forçou-lhe um sorriso nos lábios, mas ele logo o reprimiu diante do olhar cáustico de sua inquisidora. Sério novamente, ele aprumou-se, agora convicto de sua importância na vida da moça à sua frente. Não fosse seu ego tão precipitado, ele teria percebido que havia um paradoxo entre o olhar duro e as confissões que ela supostamente acabara de fazer. Mais que isso, havia uma diferença entre o ar gélido da atual e o amor acalorado da de outrora. Mas, naquele momento, o ego do rapaz fechava-lhe uma venda nos olhos.
— Olha, eu sei que o que vivemos foi bonito, mas... — começou.
— Você fez questão de enfeiar o final, não foi? — ela enunciou, sorrindo ironicamente.
— Não foi... Intencional.
— Traição? Seguida de mentira?
— Todos erram, e...
— Repetidas vezes?
Ele começava a irar-se. Já não pagara caro pelo que havia feito? Já não abrira mão daquela hábil massageadora de ego que ele tanto relutou em deixar? Gostava dela... Gostava ainda mais de si mesmo. Não era hora de pôr tudo sobre pratos limpos. Não novamente. Detestava vê-la esmiuçando todos os pecados que ele havia cometido. Amontoando-os diante dele, apenas para deixá-lo sem ação. Não tinha culpa se ela ainda o amava!
— Não posso fazer nada quanto a isso. Já pedi desculpas. Não posso voltar pra você.
— Voltar pra mim?! — ela arregalou os olhos, numa maliciosa surpresa. — Você acha que...? Acha que depois de tudo eu seria estúpida...
Ele apenas estreitou os olhos.
— Quando eu disse que não passou — ela falava devagar, imprimindo a cada palavra um tom docemente ameaçador — quis dizer... Lembra-se do que eu disse da última vez que conversamos? Que a cada vez que te via, me vinham lágrimas e eu sentia uma vontade doida de... Matar você? Você me olhou com um sorriso de quem não tem desculpas a dizer. E disse, simplesmente, "vai passar". Em parte você tinha razão. Não me vêm lágrimas aos olhos. Mas ainda sinto vontade de matar você, meu caro.
A confissão não o preocuparia tanto se os olhos dela não estivessem perigosamente vidrados, como ele nunca vira antes. Seu ego transformou o enlaço numa corda no pescoço.
— Chato, isso. Você mexer comigo dessa forma, ainda, depois de tanto tempo. Me causar tantos... Impulsos. — continuou ela, no mesmo tom adorável e horripilante.
E ela abriu uma gaveta, numa cômoda escura ao lado da janela. E dela tirou um revólver. E sorriu.
— Sábia a voz que disse "ceda a teus impulsos", meu caro.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Súplica.

Todos os dias, acordo com os cabelos grudados na bochecha e com os olhos ainda nos sonhos. Todos os dias, desde que você reivindicou para si um lugar na minha já confusa cabeça. E, sempre que acordo, suspiro, a Realidade me encara, o Sonho me devolve um olhar de "eu faço o que posso" e vamos à luta...

Sai da minha cabeça, vai. Esse lugar não te pertence. Por mim, não pertenceria mais a ninguém. A Dor, companheira minha por muito, muito tempo, já foi embora, mas esqueceu comigo o Medo. E ele gosta de mim. Bastante, ao que parece. Sobretudo quando eu afugento qualquer esperança que ache alento no meu coração. O Medo ri de mim e murmura "você é ótima, sabia?".

Eu tenho medo de que você me plante a semente da dúvida, cultive-a e suma antes que ela se faça uma certeza. Porque me vi, dia desses, com um sorriso bobo estampado no rosto por uma razão tão fútil que passei minutos a fio num monólogo de auto-censura. Porque extraio felicidade das mínimas causas, sim. Porque em vista disso tudo sei qual é a minha sentença, e quero evitá-la. Porque eu sou eu demais e isso me cansa...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Despejo.

(Post-réplica - ou continuação - do post chamado Boas-vindas, da mesma autora, e inspirado na canção "A Traição", de JH Azevedo).

Dia à morte. Céu tingindo-se de noite e estrelas. O cenário era o mesmo de todos os dias, e quando abri a porta, lá estava ela - a indesejada. Mas quem sorria era eu. Um sorriso cheio de cor.
— Olá. — enunciei, o sadismo alto e claro na minha voz.
Ela não sorria. Pelo contrário, estampava nos olhos o maior ódio que lhe era possível, o maior ódio de que alguém era capaz. Com razão. Apesar da minha natureza passiva e resignada, havia momentos em que eu simplesmente me cansava de toda aquela amarga autocompaixão que eu era especialista em sentir e decidia passar uma borracha nos garranchos que eu chamava, genericamente, de passado. Ela sabia disso. Sabia reconhecer o ânimo renovado em meu rosto. O que não era difícil, visto que na presença dela, eu não estava muito aquém da doença, constantemente com uma expressão de quem sente um fedor bem embaixo do nariz.
— Quem é? — ela perguntou. Na certa referia-se à sua substituta, à mulher que faria de mim um homem menos solitário, como sempre acontecia. Só que dessa vez as coisas eram diferentes.
— Não é. — respondi, o sorriso ainda largo em meu rosto. — Dessa vez, não é ninguém, minha cara. Dessa vez você vai embora porque eu estou cansado, apenas.
— Não minta pra mim!
— Você é a pessoa a quem eu sou mais sincero nesse mundo. E não porque eu queira. — eu já não sorria. — Simplesmente não consigo esconder de você as verdades que até de mim mesmo tento omitir.
Ela levantou-se. Andava em círculos, num gesto explícito de nervosismo. Era, de fato, bela. Quando eu não tinha que me consumir por estar fadado àquela lúgubre companhia, podia enxergar sua graça, sutil, quase cruel. Controverso que ela não me parecesse assim tão bonita quando vinha pra ficar.
— Não teime em me deixar! — ela gritou. — Quem é que te acolhe quando não te resta nada?
— A Esperança.
— Não me venha falar de Esperança. Você, que é pessimista por excelência. Há muito tempo está divorciado dessa... Dessa... Dessa mentira!
Suspirei. Fato que passei algum tempo separado de Esperança. Ela me era sinônimo de dor-de-cabeça, às vezes. No entanto, noites atrás, ela procurou-me, dizendo não suportar mais minha insônia e pedindo-me uma chance. Não fosse meu desespero por minha atual (e temporária) cônjuge, não sei se a teria ouvido. Talvez tivesse. Ela também me rendia bons frutos, preciso ser justo.
— Mentira ou não, estar com ela me era mais prazeroso que estar com você. Entenda, Solidão. Dessa vez não é ninguém. Dessa vez sou eu mesmo. — encerrei.
Ela partiu, inconformada. Na pressa, deixou entreaberta a porta. Vi um olho tímido me observando pela fresta e sorri.
— Entre —convidei.
A dama que entrou era a mais bela de todas as minhas ocasionais companheiras. Eu esperava, sinceramente, que ela ficasse muito, muito tempo comigo. Talvez ficasse. Era mais fácil quando a união era tão fraternal. Seu nome? Auto-estima.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fugaz.


Ela fechou a porta do quarto com estrondo, largou a mochila num canto, olhou-se no espelho. Seu reflexo devolveu o olhar mais exultante que os últimos meses haviam visto. Não conseguiu reprimir o grito que a alegria a forçou a empurrar pra fora da garganta.

- Yeaaaaaaaaaaaaaaaaah, baby!!

Os vizinhos provavelmente imaginaram prêmios na loteria, promoção no emprego, algo do gênero. Se conhecessem bem a garota do 203, saberiam que ela extraía felicidade do mínimo. Muita felicidade. Era o caso.

- Ele me sorriu, ele me sorriu.

E, embora esse mínimo pareça estúpido, estampou nos lábios da moça um sorriso sem prazo de vencimento.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O preço que se paga.

Ah, infortúnio. Não poderiam ter-me construído uma morada mais insalubre. Aqui é escuro, úmido, apertado. Mal posso me mexer. Mas é o preço que se paga.

É quente, aqui. Apesar disso, minhas mãos estão insuportavelmente frias e rígidas. Como tudo em mim, afinal. Meu corpo não parece reagir a esse ambiente. Sinto-me adormecida, por completo, como se uma anestesia geral me houvesse sido aplicada.

Sequer me brota algum sentimento. Meu coração não pulsa, não bombeia para o meu ser nenhuma espécie de emoção. Já não sei o que é raiva, ódio, amor, compaixão, nada, nada. Parece que me esqueci de como se sente. Só sei o que é indiferença. Nesta, sou perita.

Esqueci-me também de como se respira. Minhas narinas estão imóveis. Meu peito não arfa. Já estou acostumada à escuridão, embora esteja aqui há poucas horas. E, mesmo que não estivesse, teria uma eternidade para isso.

Estou condenada à inércia e ao breu. Estou ainda mais sujeita à ação do tempo. Estou vinte e três gramas mais leve, embora não aparente. Estou fadada ao esquecimento. E condenada à eternidade. É o preço que se paga por estar a sete palmos da superfície, encimada por um "aqui jaz" de mármore. É o preço que se paga por morrer.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Se chove lá fora...

...e eu aqui dentro.

Chuvas me são um sem-fim de coisas. Chuva é líquido. Chuva é imaterial. Chuva é o mundo lavando a alma. Chuva é terra molhada. Chuva é terra molhada demais... Chuva é terra molhada demais que acaba cedendo à força da gravidade e leva tudo ao chão: casas, vidas, famílias, sonhos. Chuva é um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de água no estado líquido sobre a superfície da Terra. Chuva é canção de ninar e música para os ouvidos. Chuva é sonho. Chuva também é pesadelo. Chuvas são minhas tempestades intrínsecas desaguando no mundo (alguém há de me perdoar por uma visão tão egocêntrica?). Chuva é de lágrima. Chuva é vontade de estar perto de alguém disfarçada em querer afugentar o frio. Chuva é frustração. Chuva é calor. Chuva é pretexto. Chuva é enterro de novela e adereço pruma cena de filme romântico.

A chuva de Ben Jor é ruim, porque molha seu amor. A chuva de Gal é de prata e é quase uma morte de tanta espera. A chuva de Demetrius, que não quer cessar, é a mesma chuva dos Cascades, que condena um tolo que perdeu seu amor, só que em versão lusófona. Marisa espera que a chuva diga.

A chuva é tão musical. A chuva é tão melancólica. A chuva é tão ela. A chuva cai lá fora.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Num dia de domingo...

Bah. Era sonho. Que injusto!
Entreabri os olhos sem a certeza de que horas seriam. Uma claridade tímida, quase uma carícia, adentrava o quarto pelas frestas da cortina fechada. Ainda perdida entre sonho e realidade, aborrecida pela interrupção das imagens maravilhosas com que minha mente me brindara aquela noite, julguei ser cedo demais e afofei o travesseiro sobre minha cabeça. Mas o sono recusou-se a vir novamente. Suspirei, amaldiçoando Morfeu e, apenas por curiosidade, consultei a hora no relógio do celular.
Nove da manhã.
Nove da manhã?
Impossível. Alguém avise ao sol que ele esqueceu-se de brilhar. Levantei-me e, apesar da minha cara de travesseiro, abri as cortinas, expondo meu rosto à vizinhança. Um cinza-chuva desolado coloria o céu. O céu de Domingo.
Domingos nunca contaram com meu apreço. O Domingo nada mais é que véspera da Segunda-Feira. E a Segunda, maldita, é apenas a ratificação de que a vida é o que é. De que tudo retorna à estaca zero. De que o CD acabou e temos que apertar o repeat se quisermos continuar a ouvi-lo. Definitivamente, meus domingos são melancólicos. E a chuva daquele em especial era apenas um apêndice. Oh, vida. Longo dia.
A TV aberta do Domingo. Programação fútil. A Internet no Domingo. Nenhum amigo online. Na certa, eles estão "dispersos pelo mundo". Todos os livros da prateleira eu já li, e mais de uma vez.
— Não poderia ser pior, não é?
NUNCA, JAMAIS, enuncie essa frase. O fantasma de Murphy pode estar à espreita, esperando pobres vítimas para aplicar sua lei, sua desgraçadamente verdadeira lei. E não é que o bandido lá estava? Ele sentiu o cheiro do meu desespero. A porta rangeu, e a figura que estampava um enorme sorriso serelepe no rosto conseguiu esticar ainda mais o ricto ao ver-me no sofá, numa expressão definitiva de derrota.
— Ah, olá! — ele disse.
— Alô, tédio, alô.

sábado, 4 de abril de 2009

Boas-vindas

Cheguei em casa. O dia estava à morte e o céu começava a tingir-se de noite e de estrelas. Abri a porta, e lá estava ela - a nova inquilina, indesejada, diga-se de passagem, da minha casa, da minha vida, sabe-se lá do que mais. Quando me viu, brotou-lhe no rosto um sorriso, amarelado feito folhas de papel abraçadas pelo tempo.
— Olá, querido. Estava à sua espera.
Suspirei.
— Sinta-se em casa. — falei, à guisa de resposta, embora tivesse certeza de que não era necessário. Quando ela vinha, tornava-se senhora de tudo, e eu não tinha forças, ou o direito, de protestar.
Ela abriu ainda mais o seu sorriso hepático.
— Já me sinto, querido. Aliás... Não sei por quê você me manda embora, se sabe que retorno depois. Você sabe que sou inevitável.
Evidências. Visíveis feito um muro de concreto. À falta de respostas, só me restou um outro suspiro, evocado da minha resignação. Essa mania de conformar-me tão facilmente por vezes me irrita. Bem que eu podia me revoltar, não é? Bem que eu podia mandar minha medonha companheira para lugares onde eu mesmo jamais gostaria de ser enviado...
Não, não poderia. Ela mesma disse, é inevitável. Ela se anuncia sempre que meu coração se parte. Vem, invade a minha vida, deita-se na minha cama, come da minha comida e faz de mim um insone até que presenças outras se cristalizem no seio da minha existência. Não era a sua primeira visita. Tampouco creio que a última. Na verdade, algo como uma intuição já me prevenira da sua chegada quando, na noite anterior, fechei os olhos e percebi que não havia ninguém em quem pensar.
Ela olhou-me com desejo. Não era desprovida de graça, porém, era bela apenas aos seus observadores. Para os fadados à sua companhia ela era, talvez, apenas cruel. Não nos é permitido contemplá-la com olhos tão críticos e superficiais.
Restou-me apenas ceder ao convite mudo de minha companheira dos próximos dias, talvez, meses. Nos enlaçamos como um só... E então pude me sentir, realmente, sozinho.

segunda-feira, 23 de março de 2009

U.T.I.

Ela sentou-se defronte ao sentimento moribundo que se recusava a ir-se embora. Estampava nos olhos um ar grave, quase solene, mas sob sua pele não se escondia nada além de cansaço. E aquele, ela sabia, talvez fosse um ultimato.
Ele andara minguando. Ela percebera isso quando a antiga vontade quase urgente de estar junto foi sucumbindo a uma exaustão triste e vampira.
— Vai logo — ela disse, na voz diminuída pela fadiga de uma espera sem frutos. — Vai.
Ele, desesperado, preso à vida apenas pelos tubos de oxigênio do hábito (ao menos, ela tentava convencer-se disso – ele ainda estava ali porque ela acostumara-se a senti-lo), bem que tentou arguir.
— Não.. Por favor. Me deixa ficar. Espera mais um pouco. Agora, eu sei que...
Um ricto contorceu os lábios dela num sorriso irônico.
— Esperar? Com que audácia você me pede pra esperar? Aliás, esperar o quê? Nada?
Os últimos meses haviam sido espera. Espera que só existia porque ele, o agonizante à sua frente, outorgava sua presença. Inúmeras vezes ela tentou esquivar-se. Inúmeras vezes ele retornou ao lugar que julgava, por direito, seu. Compreensível até, a insistência daquele estranho afeto. Que lugar um sentimento gostaria mais que um peito aberto, confuso e vulnerável? Aconchegou-se ali, sem grande resistência dela, e ali ficou. Feito um posseiro, seguro de si, prendeu suas garras, ainda que sutis, numa artéria qualquer.
Veio a dúvida. Vieram as rupturas. Ela mandou o motivo embora, mas o sentimento, ah, este ali permaneceu. Não por muito tempo, ela esperava. Entreteu-se em conceber maneiras de assassiná-lo. Que nome teria uma assassina de sentimento? Uma pathoscida? Etimologia às favas. Ela o mataria.
Mas, infeliz, não morreu. Por mais venenos que ela oferecesse. Por mais motivos que ela encontrasse. Ela mesma não conseguia resistir ao olhar carregado de futuro com que o bendito gostava de brindá-la. Fraca, fraca! E o que ela ganhava com aquilo? Noites em claro regadas a lágrimas.
Os minutos viraram horas, as horas viraram dias, os dias sedimentaram-se em meses. Enfim, como dizia o velho jargão popular, o cansaço vence. E ela estava esgotada. As marcas escuras em torno dos olhos eram a prova irrefutável de sua derrota. O cansaço bateu-lhe a porta, viu o atual inquilino de seu coração, ensaiou seu melhor sorriso de esperança e entrou. Juntos, ela e o cansaço, observaram o enfermo.
— Não. Seu tempo já está quase no fim. O bem que você não me faz já está me cobrando os honorários. — categórica. Quase cruel. Olhos cerrados para não enxergar o outro e seus olhos de promessa.
Ele já dava indícios de desistência. O mutismo de sua culpa já era, para ela, um sinal de vitória. Ele morreria. De inanição. De morte morrida. Ou matada, pelo punhado de sentimentos, atraentes e, sobretudo, inéditos, que estavam à porta, chamando a moça, incitando-a a conhecê-los.
— E você vai me deixar aqui sozinho? — ele indagou, a voz entrecortada por soluços e desamparo.
A resposta veio gélida. Com cada sílaba dançando na ponta da língua da moça, como se soletrá-las lhe causasse imenso prazer.
— Não. Vou ficar aqui. Vou assistir você morrer. Vou ficar até ter certeza de que você não respira mais.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Antropologia para quem não vai ser antropólogo.

Eu não queria saber a respeito dos empiricistas ou racionalistas, eu não queria saber quem eram Durkheim, Morgan, Franz Boas ou o papa, eu só queria ver o tempo passar depressa. Para mim, estes nomes estrangeiros não passam de frases em papéis ou, como diria o professor, tubos digestivos. Talvez nem isso... Não consigo imaginar esses nomes, tão cheios de consoantes e difíceis de pronunciar, digerindo alguma coisa. Mas isso não importa tanto, eu acho. Pessoas com nomes de substância de remédio perdem totalmente sua importância quando eu olho no relógio e vejo que ainda falta uma hora para esses Malinowskis acabarem. Gente que nunca vi (e que nunca verei, já que morreram) e que me prende numa classe onde a voz do professor tem o mesmo efeito que um comprimido de Lexotan. Ai, vida... É nessas horas que eu tenho aquela idéia que todo mundo acha besta: uma máquina do tempo! Vou construir uma com o que tenho aqui: lápis, caderno, caneta, óculos, roupas, sapatos... E minha imaginação. Ah, esse seria um bom lugar para pesquisas de campo, melhor que as ilhas Trobriand. Minha imaginação me leva onde quero... Pesquisa de campo boas seria fora dessa sala, isso sim. Aprenderia muito mais andando por esta floresta que dá pra ver da janela do que ouvindo esse professor, que nem se levanta, falar. Daria tudo pra estar lá fora, comendo uma trufa e jogando palavras fora. Aliás... Daria tudo pra mandar essa relíquia à minha frente, que chamo de professor, pras ilhas Trobriand. E que os nativos façam bom proveito! Minha cabeça dói. E eu começo a pensar seriamente em sair correndo pela porta para ver uma estrutura de verdade e não um "estruturalismo falado".
Com que petulância ele fala sobre mães! Isso não é da jurisdição dele. Deus, Deus, meus pensamentos estão cada vez mais subversivos. São os sistemas primitivos de classificação, estão me ensandecendo. Ele adora um incesto. Ele deve ter tido um caso com a mãe ou com a irmã. OU COM A SOGRA! É, ele ama, em todos os sentidos, a sogra dele. E, mudando de assunto, não acaba mais não, é? Meia hora me parece uma eternidade quando tenho como som de fundo a voz monocórdia do tédio. O pior é quando ele dá pausas. Um abismo dentro de outro ainda maior. O pior é que eu me iludo quando ele fala "na próxima aula...". Eu tenho a certeza de que ele vai dizer "tchau, I have to go now". Mas ele recomeça o blablabla. Ô, vida!

(Por Ludmila e Eduardo, dois calouros profundamente interessados na aula de Antropologia. Acreditem ou não, é um diálogo...)

terça-feira, 17 de março de 2009

A palavra é fascista.

Aula normal. Na verdade, normal é um adjetivo muito injusto pra definir a aula de Teoria da Comunicação. Eu poderia começar com um "aula singular" (incomum demais), "aula maravilhosa" (clichê demais!), "aula esclarecedora" (ainda não o era quando o fato ocorreu de fato). Okey. Evitando mais delongas, isentarei "aula" de adjetivos. Aula. Ponto.
Perdida num devaneio, entre céu, terra e éter, lá estava eu, na primeira banca da primeira fila, olhar fixo nalgum ponto vago. A aula, repito, estava ótima e não existiam razões aparentes que justificassem minha distração. Acontece que um déficit de atenção sempre me perseguiu e, mesmo nas coisas mais interessantes da vida, costumo ser acometida por essas crises temporárias de ausência (não, eu não sou epilética). Minha culpa, minha máxima culpa.
Enfim, lá estava eu, dividida entre fantasia-realidade, num estado momentâneo de transe, enquanto fixava os apontamentos no caderno - referências a Peirce, Saussure, Freud, semiótica, sexo, prisão de ventre e outras "mirabolices" (com a licença da digníssima Língua Portuguesa).
Eis que fui abruptamente chamada de volta à realidade - ah, bandida! - pelo que julguei uma frase absurda, proferida pelo professor. Ele, que falava numa voz plácida, que eu adorava ouvir, citou, como era de praxe, a máxima de um de seus teóricos. Acontece que eu não estava preparada pra ela...
- A palavra é fascista.
Fascista?! Como assim? A palavra me era um mundo de possibilidades, me tornava senhora de quantos destinos quisesse. A palavra! Não havia nada que me fascinasse mais que o poder que ela atribui a quem sabe usá-la. Eu sonhava em, um dia, incluir-me nesse rol.
- Hã?
Perdoem-me, foi o único som que a minha incredulidade e surpresa me permitiram emitir. A palavra, fascista? Ela, que me era a libertação? Que, onde quer que estivesse grafada, alçava vôo e deixava que a minha imaginação fluísse? O professor pousou o olhar em mim.
- Sim. Estamos presos à limitação da palavra. À limitação do seu significado. A palavra é fascista porque nos obriga a falar.
A explicação mergulhou-me novamente nas divagações. Só que, agora, eu refletia acerca daquela frase, que mostrou-se absurda, a princípio, e agora mostrava-se absurdamente certa. Sim, de fato, a palavra é totalitária! E nós, que lidamos com ela, somos os seus prisioneiros. Impossível viver sem ela num mundo que são aglomerados de idéias convergentes ou divergentes, sei lá. Mais ainda, é impossível viver com ela. A palavra é irrevogável. Criadora, criatura, destruidora.
Quantas e quantas vezes eu já quis dizer coisas lindas que soavam terrivelmente estúpidas quando "palavreadas"? Quem nunca achou um "eu te amo" bobo e fora de contexto? Há um sentimento grandioso dentro de nós. É a coisa mais pura, terna, intensa, blablabla, que já sentimos, e quando expressamos... Ah. Que comum. Como diriam Nancy e Frank Sinatra (ou, numa versão mais "atual", Nicole Kidman e Robbie Williams)... "And then I go I spoil it all by saying something stupid like I love you..."
Eu, hein. A razão está com o JH. "Acho que o dicionário nunca amou..."