In nomine Pater5 comentários terça-feira, 17 de novembro de 2009O ambiente era hostil – tudo ali parecia ter sido construído sob a matiz cinzenta e deprimente do caminho sem volta. Nem mesmo o padre, pleno da Luz Divina como dizia estar, conseguiu furtar-se de ouvir os ecos dos outrora usuários daquele cômodo sombrio, quando o adentrou. — Filho — começou o sacerdote, sério, dirigindo-se ao único ocupante do recinto — por quê? Por que destruiu uma vida desse jeito? Duas vidas? A daquela jovem... E a sua? O homem à sua frente encarava, com os olhos muito abertos, o próprio destino. — Não havia mais vida, padre — respondeu, rouco. — Vocês eram jovens. Cheios de futuro... — Eu pensava assim também. — E o que o fez mudar de ideia, filho? O homem baixou os olhos. Os lábios finos distorceram-se num sorriso amargo. — O que o senhor faria se descobrisse que os últimos cinco anos da sua vida foram uma mentira? Que o que o mantinha vivo, que o que o alimentava, o que era o seu primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir, não passava de uma farsa? — ... — Eu amei aquela mulher, padre. Amei-a com desespero, empreguei nisso todas as células do meu corpo. Eu abri mão de mim por ela, por nós. Transformei um quase nada em um quase tudo. O senhor sabe o que é isso? O padre apenas fitou o homem. Mexia desconfortavelmente no rosário num sinal evidente de que não era ali que desejava estar – ouvindo as justificativas do desespero de um assassino. Certamente havia coisas mais gratificantes na vida de um clérigo, como planejar sermões ou degustar um bom vinho na sacristia. Mas sua vida era, acima de tudo, uma renúncia – uma renúncia que fizera de livre e espontânea vontade (não mencionando, claro, a influência materna), para ser um mensageiro da vontade divina. Deus conferiu-lhe obrigações para com aquele rapaz. Resignou-se a continuar ali, como um bom confessor, esforçando-se para transparecer um mínimo de compaixão. — Filho, eu não tenho realmente como saber... — Não, não tem, padre. Ninguém tem. Eu fiz mundos e fundos por ela. Casa, comida, roupa lavada. Tentei transbordar ao máximo tudo o que eu sentia por ela. Não é uma tarefa fácil, padre, mas também não é complicada. É só sentir, sabe? Quando você sabe que é real, você pode amar com a maior facilidade do mundo. E ela... Ah, padre, ela. Linda. O senhor deve ter visto. O sorriso mais atrevido. Mãos de fada. Sabia mentir, ela, ah, sabia. — ele ostentava um olhar vidrado e seco, que não condizia em nada com seu sorriso débil. — Tinha uma voz de sereia que fazia qualquer absurdo parecer verdade. Se ela me dissesse que tinha visto um óvni, eu teria acreditado. Gotas de suor brotavam de suas têmporas. Ele contemplava a parede como quem havia encontrado o fim da linha e concordava com isso; mas suas mãos, trêmulas, se retorciam, como se fosse para ele uma terrível agonia estar na própria pele. — E na cama, ah, padre, na cama... Ela era uma deusa. Simplesmente perfeita. Sabia tudo. Ceder e resistir nas horas certas. Sussurrar. Ah, os sussurros daquela maldita! — a voz embargada, ele falava depressa, como se quisesse espremer todas as palavras que pudesse reunir numa mesma frase. — Ela me fazia acreditar que eu era bom. Eu acreditei, padre, que era um homem bom. O SENHOR SABE O QUE É ISSO?! O religioso sobressaltou-se. Agarrou a cruz que trazia ao pescoço com força e moveu os lábios numa ligeira prece. Desejava, agora mais do que nunca, sair daquela sala triste e monocromática e retornar à sua Igreja, onde estaria protegido dos olhos alucinados daquele homem. Sabia que deveria dizer palavras de conforto, sabia que devia fazer com que aquele jovem se arrependesse, e no entanto não podia. A austeridade do lugar fazia com que o padre se sentisse acuado numa redoma de desespero – estar ali era quase sentir a mesma agonia que o rapaz. E o rapaz tinha o direito de sentir aquilo. — Ela dizia que me amava. Que eu era o homem da sua vida, que não precisava de mais nada. Com aquela voz que me fazia acreditar em tudo. E sabe o que ela fez, padre, sabe o que ela fez? O padre fez que não com a cabeça, já imaginando a resposta, embora não quisesse ouvi-la. — Ela me traiu! Ela me traiu, padre — o homem respondeu, gargalhando alucinado — e não uma, ou duas vezes, mas todos os dias em que estivemos juntos! O senhor não imagina o quanto é... Humilhante... Chegar mais cedo em casa e flagrar uma cena... Deplorável... No chão do seu próprio quarto. E sabe o pior, padre? Sabe o pior? — ele começou a rir com mais vontade ainda — eles estavam numa posição que ela nunca me deixou tentar antes! Dizia ser libertina demais para ela! Ele encarou, pela primeira vez, o sacerdote. A aridez em seus olhos fez o padre estremecer. — E foi como se algo tomasse o meu corpo. Eu não podia atirar nela, não, padre. Ela tinha que ser destruída à proporção que eu fui destruído ao vê-la em cima de... De outro homem. Eu tinha que causar a mesma dor que ela me causou. Porque foi uma dor física. Eu senti como se meu coração fosse espremido por uma mão de ferro... Fui à cozinha, peguei uma faca... E fiz. Não sei como. O amante fugiu, o desgraçado. Mas eu não me importei com ele. Era ela que me devia contas. Era a ela que eu queria matar. Eu queria ver a luz deixar os olhos dela. E, quando terminei... Quando consegui... Pensei em me matar também. Já estava tudo terminado mesmo. Mas parei, padre... Se eu me matasse, teria que encarar aqueles olhos malditos outra vez no inferno. Eu não suportaria. O religioso fez o sinal da cruz ao mesmo tempo que um oficial, de vestes azul-escuro, adentrou a sala. — Seu tempo acabou, padre. — falou, ríspido. — Tudo bem, filho, já terminei. — o padre encarou mais uma vez o assassino, num olhar que desejou ser claro – compreensão. E penitenciou-se em silêncio. Aquilo era pecado. Quando o padre saiu, o condenado foi conduzido à maca onde receberia a dose letal de barbitúrico e tiopentato de sódio. — Eu já morri. — ele disse, ao sentir o braço ser perfurado. Minutos mais tarde, quando o padre chegou à igreja, benzeu-se, fez o sinal da cruz, acendeu uma vela à Virgem Maria e sussurrou, consigo mesmo: — Bendita a hora em que fiz voto de castidade, minha Virgem. A mulher é um ser vil. Cruzes! Causa e efeito9 comentários domingo, 8 de novembro de 2009Faz tempo que “nós dois” não existimos mais. Me são raros pensamentos de você ou de algo relacionado ao que fomos. “Nossas” canções voltaram a ser somente canções, que já dediquei a outros ‘alguéns’ por quem me apaixonei depois de você. Em suma, eu te esqueci. Mas eu só te esqueci porque estou longe de você. Eu te afastei de mim pra não ter que te ver e, com isso, lembrar de tudo o que me fazia te amar. Se eu te visse sempre, se eu permitisse que você figurasse na minha vida e na minha mente, eu iria lembrar todos os dias da sua risada que te fazia parecer uma criança e que deixava covinhas nos dois lados do seu rosto. Eu me lembraria do modo displicente com que seu cabelo anelado cai às suas costas e que sempre brigávamos quando você os cortava. Brigas de leve que acabavam em beijos seus nos meus ombros, dizendo "seu bobo! Eles vão crescer de novo". Se eu te visse sempre, lembraria da maciez da sua pele azeitonada e de como eu gostava quando você roçava o nariz no meu pescoço. Eu me lembraria do seu olhar atrevido quando eu negava um pedido seu, e da sua insistência travessa que eliminava qualquer possibilidade de “não” das minhas ideias. Eu lembraria da sua voz rouca e grave ao acordar, que virava branda e doce quando me queria e assumia um tom quase infantil quando você não queria pensar. Eu me lembraria de como suas sobrancelhas se arqueiam num ângulo estranho quando você pensa demais. Eu me lembraria de como virávamos as noites conversando sobre coisas cada vez mais aleatórias e de como ríamos, surpresos, de nossas ideias tão loucas quanto compatíveis. Nessas horas tínhamos a certeza de ![]() que era sorte demais termos encontrado um ao outro. Eu me lembraria de tudo isso, me lembraria do porquê de te amar tanto e voltaria a te amar. Porque amor não acaba, só adormece – se esconde nalgum vão remoto do coração esperando a hora de arrebatar tudo para si outra vez. E outros amores acham lugar pra surgir. Com você longe de mim, eu te esqueci. Com você longe de mim, eu não te amo. Mas só com você longe. Então é melhor que você fique onde está. Tao11 comentários domingo, 1 de novembro de 2009(Referências bastante claras ao fim do texto... :)) — Sol. — Lua. — Dia. — Noite. — Luz. — Escuridão. — Casa. — Rua. — Vício. — Virtude. — Medo. — Coragem. — Felicidade. — Tristeza. — Monocromático. — Multicolorido. — Chão. — Teto. — Cigarra. — ...? — Vamos, cigarra. — Formiga. — Bom! — Mau. — Não, não era pra você dizer o antônimo agora. Foi um elogio. Mas tudo bem, você está indo muito bem... — Obrigado. Continuamos? — Bem. — Mal. Com L. — Sul. — Norte. — Azul. — Amarelo. — Você é um oponente e tanto! — Obrigado. — Por nada... Veneno. — Cura. — Luxúria. — Castidade. — Amor. — ... — O que foi? Este é um contrário óbvio, filho. Ódio. — Nem tanto, pai... — Como assim? — Eu gostava de uma menina lá da escola, sabe? A Aninha. Ela sabia disso e, para me provocar, beijou meu melhor amigo. Foi o primeiro beijo dela, pai. O primeiro beijo que ela sabia que eu queria dar nela. E agora eu a odeio. — Então. O ódio é o contrário do amor. — Não é, pai... Eu gosto dela. Apesar de odiá-la. Ela ainda tem espaço nos meus pensamentos e no meu coração, ainda que seja numa lista negra, sabe? Eu procurei no dicionário e ódio quer dizer ‘raiva inveterada e absoluta’, e é o que eu sinto, mas eu só sinto isso por ela porque eu a quero pra mim, comigo, e não posso tê-la porque ela é cruel. — E qual é o contrário de amor? — Então, pai... Eu saberei que não a amo mais quando passar por ela como se ela fosse parte da decoração. Um pedaço do ambiente. Quando ela for invisível como uma ameba. Quando eu não me importar se ela estiver mal, e ao mesmo tempo não me afetar se ela estiver bem. O dicionário diz que isso se chama indiferença. Procurei por alguns minutos até encontrar. — Você descobriu isso lendo apenas o dicionário? — Não, pai, eu descobri amando... “O dicionário nunca amou”. Ruptura.14 comentários terça-feira, 6 de outubro de 2009
A madrugada ia alta. Metade da cidade dormia o sono dos justos – entregues a Morfeu, à espera de, no mínimo, um sonho bom que desanuviasse seus semblantes sonolentos quando chegasse a hora de despertar. A outra metade não dormia – cantava, bebia, gritava, fumava, amava, ria, furtava, transava, cheirava, desfalecia. Perambulava. E morria.
Ele não sabia aonde ia, nem porque ia, apenas deixava o ruído dos seus passos secos e o tilintar do punhado solitário de moedas que trazia no bolso ecoarem na noite. Algumas tristezas lhe pesavam na mente. Ele esperava, com sinceridade, que uma boa dose de aguardente aliviasse o fardo. Encontrou a moça numa das esquinas de seu caminho improvisado. Ela encolhia-se na penumbra como se quisesse passar despercebida, ou como se desejasse realmente fazer parte da paisagem e nada mais. Ergueu os olhos quando ele passou, hostil, mas baixou a vista instintivamente para a garrafa de vidro aninhada em seu colo. Ele a encarou por longos minutos antes de, com um suspiro, falar. — Eu perguntaria a você o que uma moça tão jovem faz numa rua deserta à essa hora... Mas acho que minha intromissão não me dá direito a respostas, não é? Ela apenas envolveu a garrafa nas roupas, sustentando-lhe o olhar com obstinação. Seus olhos verbalizavam o que o silêncio da rua traduzia – ele não era bem-vindo ali. No entanto, o escuro e as circunstâncias sopraram no rapaz alguma insolência no juízo. A noite ia avançada; a rua era pública; a jovem era bonita – ainda mais com toda aquela raiva estampada nos olhos; e, o mais importante, aquela garrafa continha um calmante para os nervos, uma chave para o esquecimento temporário dos problemas que faziam dele um sonâmbulo-insone-insano. — Sabe — ele falou, acostando-se ao muro baixo, em frente à ela — está uma bela madrugada. Eu pretendia comprar um bom litro de cachaça e tentar afogar as minhas mágoas... Mas encontrei você, sozinha, encolhida, com uma garrafa no colo. Acho que é uma noite bonita demais pra você passá-la sozinha, não é? Silêncio. — Ah, Deus. Mais uma madrugada, mais um monólogo. Ao menos, dessa vez não falarei com as paredes... Terei alguém de verdade. Talvez eu pareça menos autista falando sozinho com uma moça. Ela riu. Sua risada era quase um paradoxo – tão sem alegria que soava como um lamento. — Você não vai parecer autista, mas vai parecer idiota. — Então você vai fazer um favor à minha reputação e vai conversar comigo? — Por que eu faria isso? É madrugada. Não tem ninguém na rua. — Talvez pelo meu magnetismo, ou minha simpatia... — Ou pela sua impertinência, correto? — a nota de irritação na voz dela era menos audível agora. — Eu diria pela minha insistência. Ou pela sua educação refinada. — Você supõe coisas demais. — ela desviou os olhos do chão para o rosto dele, por um momento, e depois para o céu. Os olhos da moça passaram a ostentar uma apreensão triste. Ela se mexeu e a garrafa escorregou de seu colo, fazendo um ruído metálico ao aterrissar na calçada. — Cuidado com isso... A uma hora dessas, é ouro líquido, sabe? — falou ele, observando-a. Ela mirou a garrafa, cujo líquido balançava ao sabor do impacto recente. — Talvez não seja... Eu achei que fosse, mas talvez... — ela balbuciou, a voz fraca. — Não me diga que você é iniciante! — ele exclamou, sorrindo, adiantando-se para a garrafa. — Não!! Eu não sou iniciante. Eu só... Estou esperando. — Hm. Esperando. Seja feita a vossa vontade, então. — ele devolveu a garrafa para a jovem, que voltou a agasalhá-la nas roupas. Silêncio. — Por que você está aqui? — Para esquecer. — Esquecer? — Cada noite, tento esquecer cada dia. É uma lógica simples. — ele sorriu, amargurado. — E ineficaz, pelo que eu vejo. — Mas eu sigo tentando. Não tenho nada a perder. — Sendo assim... — E você? Por que decidiu recorrer à madrugada? — Não sei. Pra fugir, eu acho. — Ótimo... Resumindo, somos dois covardes, não? — ele deu uma sonora gargalhada. — Um tenta esquecer, outra tenta fugir... E no fim... — o sorriso dele esmoreceu — sabemos que é inútil. Ela acariciou, inconscientemente, a garrafa embrulhada em suas vestes. “Talvez não seja tão inútil assim pra mim”, pensou. “Talvez os meus meios de fugir sejam melhores que os seus meios de esquecer... Mas será que eu tenho que escolher esse caminho?”. ![]() Ela sentia a vontade vacilar. Havia se refugiado ali por ter perdido tudo o que lhe tivera significado – família, namorado, amigos, casa. Era culpada e por isso escolhera, sem hesitar, a desistência. E, no entanto, agora, sentia cada vez mais vontade de conversar com aquele estranho; confidenciar-lhe segredos, saber-lhe os motivos. Sentia-se tentada a adiar seus propósitos, ou desistir deles. Começava a pensar se realmente havia desejado aquilo ou se tudo não passava de um capricho imediatista. E, por fim, julgou-se boba pelos desejos infantis que conjurava na mente e no coração. Ele, por sua vez, esqueceu. No caminhar das horas, ali, conversando com a bela desconhecida, esqueceu de tudo o que o fazia querer embriagar-se de aguardente. Os olhos tristes da moça assumiram o primeiro plano em sua atenção, a voz baixa e grave com que ela falava, as mãos torcendo-se, nervosas, no colo dela. Atração irremediável. A única coisa que ele não esqueceu foram seus impulsos levemente alcoólatras. O sol não era nada mais que uma linha alaranjada no horizonte quando eles silenciaram. Ela, numa letargia sonolenta, apoiava a cabeça sobre um dos ombros, os olhos semicerrados. Ele aproximou-se, prevendo a falta de reações da companheira de serão, sorriu de leve e beijou-a nos lábios. Depois, com a delicadeza de quem manuseia porcelana, ele tirou a aguardente das vestes dela, abriu a garrafa e tomou um longo gole. Apertou os olhos. Ela só despertou horas depois. Deparou-se com a garrafa aberta, na horizontal, envolta por uma poça de líquido transparente – aguardente e o veneno que ela escolhera para trilhar o caminho sem volta da desistência – e o gentil andarilho que conhecera naquela madrugada estendido ao seu lado. Morto. See ya.12 comentários quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Pensei em dizer milhares de coisas naquele momento, que eu sabia ser o último a poder ser chamado de nosso - em que eu era tua e você era meu. Eu procurava palavras, palavras que não soassem estúpidas, piegas ou que não te fizessem julgar-me louca. Foi inútil. Elas que sempre me foram a companhia mais insistente eram também traiçoeiras e fugiam-me quando eu as procurava ansiosamente, beirando o desespero de quem não quer ser esquecido.
Diante do peso daquele momento, o último de tão poucos, emudeci.
A vida é traçada à régua e compasso pelo milenar ritual do princípio, do meio e do fim. Nada pode fugir a essa regra. E ainda assim pareceu-me tão estranho que nosso destino fosse o 'nunca mais', simples e definitivamente. Aquele adeus era prematuro demais para ser real, meu bem... Eu queria te ver de novo. E não sei se há alguma explicação compatível com o sentimento que você me forçou a criar, de forma tão rápida, tão inesperada. ![]() Mas você me disse, a expressão nos olhos escuros quase idêntica à minha, "não é um adeus. É um até logo. Eu volto. Tenho certeza que volto. Está bem?". Eu ri meu riso que era ao mesmo tempo descrente, triste, encantado, e aquiesci. Talvez você volte mesmo, não tenho dúvidas. Mas talvez o 'nós' que existiu fique encerrado no nosso adeus, para sempre. O vento marinho açoitava meus cabelos e uma chuva fina e gelada nos cobriu. Você segurou meu rosto como se segurasse algo muito delicado, contornou meus lábios com suavidade e me beijou. "See ya", você sussurrou. Fiquei com seu gosto na boca pelo resto da noite. Arquivo Permanente11 comentários sexta-feira, 28 de agosto de 2009(Eu sei que havia dito, no post anterior, que passaria a falar sobre a realidade. Se me permitem, vou adiar um pouco a dita cuja. Por motivos de força maior, postarei um texto relativamente antigo. Aliás, em arquivologia, o termo 'arquivo permanente' é utilizado para especificar documentos que possuem valor histórico, probatório, informativo e de investigação. Pra mim, é um pouco de tudo isso...) Eu escrevo. Um escrever assim, sem razão, vomitar o que comprime o peito e só. Um escrever que me leva de encontro à agonia em perceber ![]() o quão supérfluas e insuficientes se tornam as palavras pra dar sentido ao que o coração teima em sentir a cada pulsar. Eu escrevo e de nada me adianta... A agonia não passa, a solidão persiste, o silêncio me amortece. Porém, algo tão etéreo quanto essas desesperadas emoções me impulsiona a escrever... já não sou dona de mim. Estou contida nas palavras e as palavras me contém. Escrevo como que para prestar contas do tempo perdido. Escrevo na esperança de, quem sabe um dia, passar os olhos por essas linhas novamente e rir do meu antigo drama, com a nostalgia de quem já convalesceu estampada nos olhos. Eu escrevo... Como se devesse a mim mesma essa empreitada. Como se tudo fosse mudar ao longo destas linhas... Mas nada muda. Ainda estou viva. E você, alvo das palavras, alvo do coração, desfila no mundo, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe...Eu escrevo como se essas linhas fossem te conjurar para perto de mim... para perto do meu coração. Ventos da Mudança7 comentários sexta-feira, 21 de agosto de 2009![]() Não é apenas por estar escutando Winds of Change agora. É que, dia desses, enfurnada diante desse cubo luminoso chamado monitor, lendo e relendo blogs dos amigos, pensei. Repensei. Acho que talvez esteja na hora de despir-me um pouco do eu-lírico, ainda que ele carregue um tantinho, ou um bocado, de mim. Talvez seja a hora de vestir a camisa da profissão que escolhi e exercitar meu poder de síntese e crítica - isso se o tal poder realmente reside em mim. Não faço ideia. Quero experimentar. Talvez seja a hora de deixar este sedutor (porém volúvel) mundo da ficção e dedicar meu tempo à realidade dos fatos, não? Escrevo agora como Ludmila, futura jornalista (não que isso seja grande coisa, levando em conta as atuais circunstâncias...). Até mais. :) (ah, preciso ser completamente sincera com vocês. Também ando sem inspiração pra ficção. Vergonhoso, não?)
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atirar nela, não, padre. Ela tinha que ser destruída à proporção que eu fui destruído ao vê-la em cima de... De outro homem. Eu tinha que causar a mesma dor que ela me causou. Porque foi uma dor física. Eu senti como se meu coração fosse espremido por uma mão de ferro... Fui à cozinha, peguei uma faca... E fiz. Não sei como. O amante fugiu, o desgraçado. Mas eu não me importei com ele. Era ela que me devia contas. Era a ela que eu queria matar. Eu queria ver a luz deixar os olhos dela. E, quando terminei... Quando consegui... Pensei em me matar também. Já estava tudo terminado mesmo. Mas parei, padre... Se eu me matasse, teria que encarar aqueles olhos malditos outra vez no inferno. Eu não suportaria. 


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