domingo, 14 de fevereiro de 2016

Segue

(96 Days, de Mayra Andrade, me deu a ideia)

Não há razão para essa tristeza se eu acordei de manhã e meu café era doce. É uma daquelas manhãs cinzas de nada pensar – é meu café emoldurado na janela e o vento levando a fumaça pros confins da atmosfera. É manhã de sino-do-vento tilintando e um vazio sem nome entalado na garganta. É manhã de quase cem dias sem pensar em você, e olha que nem fiz esforço.
E a título de informação, estou me alimentando bem, as janelas estão limpas, todas as coisas estão em seu devido lugar, até aquelas que não pertencem a lugar nenhum. Continuo cometendo meus erros na santa humanidade de cada dia. Coisas que você gostaria de saber, eu acho. Está tudo imerso nessa calmaria cinza feito a manhã. Eu ando tossindo, mas não é nada demais, sabe? Ando fumando um pouco além do esperado esses dias. Imagem e semelhança de alguém que conheço.
Não sei dizer se as coisas vão bem, mas as coisas vão. Nessa quietude preguiçosa da vida que continua à revelia de tudo, como se sua ausência não houvesse sido imposta assim, de repente. E desço pras ruas e os carros avançam como se fossem barcos e tudo isso porque eu acendi mais um. E acenderei outro, e esse é por você e por sua memória. Tá vendo o estrago? Você parou, eu soube, mas me deixou com o vício. Pulmões são superestimados, você diria. É, eu ando fumando demais esses dias.

Eu ensaiei contra o vidro embaçado as frases que diria se houvesse sentido, mas não vejo mais propósito nisso. Elas sobem no ar e encontram a fumaça do meu café. Em direção ao nada. É frio desse lado? Por aqui é um pouco, mas o café queima minha língua e eu acabo esquecendo tudo isso. Que é mais ou menos o seu destino também. Mas não tem problema, não tenho razão pra estar triste. Acordei essa manhã e meu café era doce.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um quase

A gente não se olha nos olhos, você reparou? Parece que ficam no ar todas as acusações implícitas do nosso quase-amor – esse atrevido, que agora dorme tranquilo no vão dos anos que se passaram.
Já faz tanto tempo, não é?
Parece até covardia falar em saudade. De tudo o que foi eu só queria de volta minha poesia, porque parece que você a levou toda embora e esgotou toda a minha sorte em histórias de boa loucura. Sabe? Como se numa tacada só eu tivesse me permitido toda inconsequência que uma vida admite? É coisa injusta, mas dos meus dedos não sai mais nada que me agrade desde que nos demos por encerrados.
Você foi meu melhor beijo, meus maiores suspiros, minha melhor roupa, minha mais louca canção. Te dediquei tantos poemas, tantas palavras. Me pergunto se você sabe. Nunca tive coragem de te contar e agora, tenho menos ainda – agora que nossos caminhos não se cruzam mais.
Nunca nos pertencemos, mas existe essa parte de mim que não tem outro dono que não você. Gosto de pensar que existe um você que só eu tenho, só eu vi, só eu sei. Também gosto de pensar que você guarda consigo um pouco do meu eu que foi seu, com o mesmo cuidado que dedico a tudo que foi nosso.
Nossas memórias de quase-amor. Você é quem jura ter chegado perto de me amar; eu não tenho certeza se fiquei aquém da linha de chegada.
Eu só sei que eu queria de volta aquela fluidez de palavras brotando da saliva. Dos meus olhos. A malícia quase inocente, aquela ansiedade que me levava embora, embora. Aquele não saber das coisas.  Aquele eu que só você tem. Essas coisas que ninguém mais pode me dar.
Quero por querer, porque sei que nada disso posso reaver. Existem coisas que ficam presas nas dobras das primeiras vezes. Só o que nos sobrou é o suspiro que parece saudade, embora dizer saudade seja quase um desafio ao presente... E nossos olhos, que não conseguem se encontrar.

Talvez seja melhor assim. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Pendência

Você tem uma pendência? Um assunto mal resolvido, não tão importante, mas que cutuca o fundo do seu cérebro de tempos em tempos, te lembrando de que ainda existe e que ei, não pretende parar de te atormentar até que você tire a questão a limpo de vez? Incômodo e inofensivo, feito um cisco no olho?
Eu tenho uma. E olha, não sei por quê, não sei qual é o meu problema. O salário que cai na conta ao fim de cada mês paga todas as despesas e paga ainda mais algumas cervejas. A tal solidão não me atormenta mais, uma moça bonita sempre atende as minhas ligações e diz sim aos meus convites para o cinema, para o chope de depois e a transa da madrugada. Acho que as pessoas chamam isso de namoro.
E isso acalma um homem, dizem. Isso é o que o faz recolher o time, fechar a porta, apagar as luzes e se dar por satisfeito, muito satisfeito, no nível de suspiros risonhos toda noite, antes de dormir. Você pode dizer que eu sou um homem quieto.
Mas há ela.
Ela remanesce, como um eco do não feito no passado. Não é que ela esteja diferente, embora me pareça diferente, a cada rara vez que a gente se encontra. Mas ela remanesce. Ali, na minha frente, é quase um grito do passado, me jogando na face as decisões que não tomei.
Como nos velhos tempos, ela ainda sorri quando me vê e ri das minhas piadas, não sei se por compaixão ou por seu senso de humor pouco exigente. Tudo está igual. E ao mesmo tempo, tudo está melhor, maior. É como se aquela figura me esfregasse na cara o que eu perdi. Você entende isso? Ela fica cada vez mais atraente pra massacrar em mim o fato de que a deixei escapar.
E não é que eu a tenha deixado escapar, pelo amor de Deus! Aconteceu algo, foi bom, eu não sabia como encerrar, não queria encerrar, mas também estava pela metade e ela decidiu por mim. Sumiu por uns tempos, voltou quando as coisas estavam calmas. Eu, definitivamente, estava calmo... Mas perto dela, nem um pouco.
Pode me chamar de porco. De canalha. Ela mesma o faz, quando pergunto “é coisa da minha cabeça ou você está ainda mais gostosa?”. Me devolve aquele sorriso meio surpreso e rebate “Depende, de que cabeça estamos falando?”. E ri. Aquele sorriso de não-vai-acontecer-de-novo. Ou de tome-vergonha-na-cara. Ou de quem não me leva a sério. E não deveria, olha de quem estamos falando.
Mas ela remanesce. O sorriso é o mesmo, a simpatia de sempre, as piadas ruins ainda por aí... Mas não sei o que essa menina tem que me deixa fora de mim. E eu desconfio que nunca de fato saberei o que é viver sem essa tal pendência. A não ser que as coincidências nos coloquem no lugar certo e na hora certa.
Ela remanesce, incômoda feito um espinho do pé. Uma pedrinha no meu sapato. Bagunçando a tal paz de que eu me julgava um afortunado possuidor.

E há quem me aconselhe que deixe tudo isso de lado e viva minha vida. É... tem gente que não sabe que a vingança não é o único prato que se come frio. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

In Mortis Examine



Morreu n’algum ponto entre a nona e a décima curva da estrada deserta. Levantou-se e mal olhou o cadáver lacerado – pouco importava, afinal. Mal retinha os detalhes perimortem na memória. Lágrima ou outra, oco no peito, abismo nos pés. Palavras duras, voz de veludo. O fim do mundo contido em poucas sentenças. Tempestade vermelha e negra entre crime e castigo. O de sempre.
Morta, deixou o corpo, limpou a sujeira, caminhou. Seria a terceira ou quarta de suas mortes? As lembranças não se sustinham. Eram os tais primeiros minutos. Quanto mais até o rigor mortis? Quanto mais até que os últimos resquícios de vida se dissipassem numa sinapse incompleta?
Você é tão fraca, o cadáver se aproximou.
Deve estar doendo, respondeu indiferente.
Não mais do que doeu das primeiras vezes, rebateu conformado. Então?
Então...?
O que vai ser? Luto? Revolta? Reclusão?
Passei da idade, e cerrou os lábios.
Talvez fosse a quinta de suas mortes, não estava certa. As convicções caíam pela estrada, aos pares, junto a tudo que era concreto. O cadáver a seguia de perto e ela sabia que assim seria. Testemunharia a própria dor como alma fora do corpo. Anestesiada e dormente. Equilibrada mal e porcamente na linha tênue entre culpa e culpado.
O que sabia, o que tinha por certo é que entre mortos e feridos, salvavam-se os fortes e ela nunca fora capaz de preencher aquela estatística. Seu destino era sempre morte, fosse numa beira de estrada, numa casa em ruínas, num banco traseiro, numa vala comum. Causa mortis: excesso.
Mais que fraca, sentia-se exausta. Só queria que a abiose encerrasse todas as amarras que a prendiam à vida. Respiração. Impulsos. Circulação. Sonhos. Vontades. Pesar. Quando se morre mais de uma vez, tudo é questão de hábito.
Mas eis que caminhou indistintamente por uma hora ou um minuto, talvez menos, ou talvez mais, e voltou ao mesmo lugar em que estava antes e sempre estivera. Morta, entre a nona e a décima curva. A quarta ou quinta de suas mortes. Eviscerada na beira da estrada.
Que assim seja, e deitou-se no asfalto.
Assim será, o cadáver a acompanhou.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Alice

Alice amou, amou muita gente. E a cada vez que Alice amava, eu a via padecer no chão com as mesmas lágrimas de desgosto a manchar-lhe o rosto e o olhar áspero de quem prometia a si mesma jamais se entregar àquelas emoções novamente. Mas ela tinha memória curta, feliz ou infelizmente, e outra vez, e mais outra, e mais outra, eu a vi sangrar até a última gota de sangue do corpo por quem não lhe amava de volta.

Sim, Alice era dotada dessa grande capacidade de amar e de nenhuma capacidade de discernir. Amava, amava, amava, relegava ao próprio futuro o porvir... E odiava a si mesma no fim, por todo o descomedimento, por toda a ânsia de liberar o mundo que guardava em si, pela falta de talento em fazer boas escolhas.

E eu, na penumbra, aguardava pacientemente minha vez.

Porque ela os amava todos, mas não amava a mim. Ela amava mesmo aos que não a queriam, por mais que ela insistisse; aos que a ignoravam mesmo quando ela expunha suas faces mais secretas e mais lascivas.


Sou teu, Alice, mesmo que não queiras.

Mesmo que despedaces minhas rosas murchas

E que escarneças do meu não-amor.

Sou teu, Alice, se tu quiseres,

e se não queres, sou teu ainda.


Eu queria que ela me visse, me notasse, que me olhasse. Alice, quando e se me olhava, sorria com todos os dentes e me envolvia num aperto sem desejo, dizia na voz branda tudo o que eu não queria ouvir. E ainda assim, eu esperei.


Sou teu, Alice, na voz cansada,

Nos meus bons modos, sorriso aberto

E nos meus sonhos, normais que sejam

Que em vão te beijam enquanto somes.

Sou teu, Alice, se tu quiseres,

E se não queres, sou teu ainda.


Não sei o porquê de esperá-la, não sei o que a tornava mais que as outras. Alice era como todas elas e era mais, era uma força da natureza, que não se sabia se partia ou se chegava, se ficava ou se ia embora. Alice nunca era certeza e possuía aquela aura instigante das incertezas que me fazia esperar. E esperar.


Sou teu, Alice, que não me amas

Sou teu, Alice, e de outras tantas

Que a mim não querem, que sou mais um

A teu exemplo, Alice minha

Que não é minha, de modo algum.


E um dia ela me olhou. Também não sei como, também não sei por quê. Nessa história eu sou bom em não saber. Ela me olhou e eu captei um lampejo do que sempre quis ver estampado nos olhos dela. Ela disfarçava, sorria, empurrava o olhar pra longe, desviava o assunto por tangentes e secantes. Mas era minha deixa. Eu não perderia aquele sorriso.

Alice, enfim, cedeu. Era noite ou dia, cerveja ou vinho, um bar ou bistrô? Ela foi suave ao toque. Desmanchou-se sob minhas mãos, e riu um riso solto sob meus lábios, e era tudo maior e mais intenso do que sequer pude imaginar. Ela tinha gosto e cheiro, cantava e gemia, às vezes, permanecia muda sob mim, tentando sincronizar sua respiração com a minha.

Eu a quis de tantos jeitos que ela me quis também. E aí eu senti a verdadeira força do mundo que ela carregava atado às costas e não tinha medo de oferecer. Um infinito particular desses, onde é possível se perder se não vigiamos os passos. Era tentador, mas era aterrador. Confesso – me acovardei. E tive dela aquele mesmo olhar áspero e o mesmo sangue no chão, que ela tentou conter. Não chorava. Não sei se por esforço. Apenas fechou os olhos e indicou com a mão que eu fosse embora.


— Você não merece nada.

— E você merece tudo.

— Contudo, nada foi o que tive.

— E eu tive mais do que pedi.



Desculpe, Alice, o seu amor é doce demais.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Linger

Para ler ouvindo:


— É amor.
— É culpa.
— É tesão.
— É falta.
— E o que nós faremos?
— O que fizemos a vida toda.

Ele roubou o cigarro dos lábios dela, deu uma tragada, aspirou fundo a nicotina e o pousou no cinzeiro enquanto soltava a fumaça devagar. Ela apenas o observou. Desceu os olhos pelas suas costas, pelas cicatrizes lívidas que ladeavam a coluna bem pronunciada sob a pele. Ele apoiou o peso nos dois braços e alongou-se.

— Agiremos como adultos?
— Falaremos sobre o tempo...
— As pessoas...
— O trabalho...
— Uma média aritmética de tudo o que for banal e menos interessante do que o que somos hoje.
— Algo assim.

Ela ainda ressonava sobre os lençóis em desordem. Ele encarava o dia cinza pela janela panorâmica, sentado na cama. O cigarro ainda queimava, esquecido sobre o cinzeiro.

— As coisas não precisam ser assim.
— As coisas não precisam ser.
— Você foge.
— Você luta.
— A fuga é covarde.
— A luta é estúpida.

Ele enterrou o rosto nas mãos, ela continuou a olhá-lo. O relógio do videocassete piscava as 12h que há tempos já não eram, em letreiro azul. A cidade lá fora parecia estagnada. O tempo parecia estagnado. As horas certas passavam despercebidas.

— Por que você não arrisca?
— Por que você não me solta?
— Por que você não me cega?
— Por que você não me erra?
— É quase um poema...

Ele escorregou as mãos para o queixo. Olhou-a pelo canto dos olhos. Ela ainda o observava. Suspirou. Suspiraram. Ele deitou-se ao lado dela, envolveu-a nos braços. Ela prendeu a respiração, imóvel. Ele estreitou o abraço. Tinha cheiro de cigarro e lavanda. Permaneceram mudos, ele, de olhos fechados, ela, com os olhos vidrados, encarando o teto, desejando estar em outro lugar.

— Vamos parecer dois idiotas.
— Eu vou rir.
— Eu vou saber do que você vai estar rindo.
— Vou tentar não pensar nisso.
— Eu vou estar pensando em você.
— Eu sei...

O despertador dela tocou. A tensão que os mantinha imóveis se quebrou, ela estendeu a mão direita para silenciar o aparelho. Alguns segundos de mais silêncio. Ela se sentou na cama. Ele cobriu os olhos com um dos braços e chorou.

— Nós não precisamos nos amar pra fazer isso.
— Mas parece errado não amar depois de fazê-lo.
— A decisão entre amar e não amar cabe unicamente a nós.
— E você acha que é possível escolher entre um e outro?
— Eu acredito nisso piamente. Você não?
— Deixa de ser uma escolha quando as coisas caminham bem.
— Deixa de ser uma escolha para ser...?
— Uma obrigação.
— Você não tem a obrigação de me amar.
— Nem você.
— Mas e se eu quiser?
— Você não quer.
— Tem razão, eu não quero.

Ela o olhou por mais algum tempo antes de começar a se vestir. Apanhou as roupas espalhadas pelo chão, enfiou algumas delas de qualquer jeito em sua bolsa de náilon preto. Passou as mãos pelos cabelos, desamassou a blusa que vestia e o olhou novamente. As lágrimas manchavam a pele morena. Com um último suspiro, ela abriu a porta e saiu.

— E quando eu falar sobre o clima...
— Eu vou estar pensando no quanto você se arrepia quando eu te mordo...
— E quando eu disser que vai chover...
— Eu vou me lembrar do quanto suas mãos são geladas...
— E quando eu disser que nunca mais faremos isso...
— Eu vou pensar no quanto quero fazer isso de novo.

Ela andou por alguns quarteirões, sentindo o sol arder na pele, a tristeza estampada nos olhos franzidos. E lá se ia uma grande história. Poderia ter sido muita coisa, mas não era amor e aquilo doía.







sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Singela canção para Ana

Sai do quarto, Ana, e vem ver o mundo que pode te fazer feliz. É verão, faz calor, a cidade se enfeita de sol e de gente e só você não vê. O mundo quer te ver, Ana, eu quero te ver também.
Você já viu a forma como a lua se reflete no mar? Parece um espelho, Ana. Parece um espelho e o vento salgado que vem da praia envolve o nosso corpo e esquece na gente o cheiro do mar. E as ondas, Ana, você já ouviu? As ondas que quebram na areia e a gente não sabe se é fúria ou carícia? Está tudo lá, Ana, e lá estão todas pessoas a ver e cheirar e sentir e só você se enclausura nesse castelo que me priva de você e que te priva de si mesma.
As pessoas, Ana. Os rostos que se fundem num mar colorido de gente, distinto e indistinto. São tantas nuances e formatos, Ana, quem me dera memorizá-los. Vez em quando eu pesco um sorriso gratuito ou outro, gente que sorri só por sorrir e gente que passa o sorriso adiante e assim o dia ri mais. Aí o riso chega em mim e eu choro, Ana. Eu choro por não poder repassá-lo a você.
Sai desse quarto, Ana, vem ser da gente. Vem ser só sua ou de quem quiser, mas vem ser. Enclausurada você não é, Ana, enclausurada você não vive, só existe. Sai daí e vem ver as feridas abertas da cidade, os esgotos e a miséria, a música e a dança e tudo o mais que existe além da janela. Vem ver a gente que te ama e que de amor não depende, mas se alimenta. Vem ver a gente que quer te ver. Porque com você aí a vida continua, Ana, segue o mesmo rumo de sempre, no mesmo andar morno de sempre... Mas com você, Ana, ela para pra te ver passar.

E sem isso, Ana, não dá pra viver sem. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Perdão você

(post fruto do meu 'limbo textual', onde eu guardo as coisas que termino mas não acho que devam ser postadas. A não ser que haja um bloqueio criativo, como é o caso agora. Agradeço à moça que me emprestou sua história e dedico a toda e qualquer pessoa que já se sentiu assim. Afinal, quem nunca?)

Me perdoe se gosto das coisas claras, das cobranças bem expostas, das responsabilidades traçadas previamente. Me perdoe se eu ajo de acordo com o ambiente, se me apaixono se me dão chance, se quero quando me querem também. Peço desculpas por ter sido eu mesma, espontânea, por ter fluído como o vento que me deixou na sua porta. Rogo perdão pelo silêncio que adotei quando percebi que de você não teria mais que a língua. Peço perdão pelo silêncio e distância que surgiram quando você os fez surgir primeiro.
Me perdoe por ter falado de quem me tirava o sono quando você falou de quem tirava o seu. Me perdoe por ter feito de você um pequeno porto seguro onde ancorar todos os meus poréns. Me perdoe por ter insinuado algo mais no nosso prosseguir. E também peço perdão por ter inibido toda e qualquer ideia de ‘algo mais’ diante da sua indiferença.

Me perdoe por ter posto água nessa sopa conspiratória que cozinha na sua mente. Me perdoe se te fiz sentir uma peça, coisa que você não era, mas devia ser. Agora, eu me redimo. Pronta pra te ver reduzir-se ao nada.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Com a luz

(pro @eduardoleite, que me emprestou palavras e uma história. Seu Marcelo Camelo também, algumas. Pouquinhas. E Rodrigo Amarante, o tal cantor de voz etílica).

De tudo o que havíamos sido, só restou um rolo de filme por revelar.
Lembro que ele achava engraçada essa minha nostalgia analógica, de querer registrar tudo em negativos e revelar depois, mesmo que só pra mim. “Por que você não expõe?”, ele me perguntava, e eu dava de ombros. Acho que eu tinha medo. Medo da fugacidade dos olhares digitais. Será que as pessoas entenderiam? Será que saberiam guardar o mesmo silêncio daquelas fotografias, escritas só com luz e perpetuadas em papel fosco? Será que, na falta de botões de polegares erguidos, saberiam expressar o gostar ou o não gostar?
Eu não sabia. E por não saber, guardava tudo o que via através das minhas lentes pra mim. E pra ele. Ele chegava de mansinho atrás de mim, enquanto eu mesmo admirava minha parede fotográfica – eu sem saber se gostava do que via ou se meu olhar por detrás da câmera era tão caótico quanto eu mesmo – apoiava o queixo no meu ombro, dizia baixinho “você é bom nisso, sabia?”. Eu não precisava do resto do mundo se ele sabia ler o que eu escrevia com a luz. Aquilo era felicidade, e era bom.
Bem, já não éramos mais. Estávamos protegidos pelo invólucro de plástico do filme. Escritos com luz, mas só. Que bom que pensamentos dele não eram tão perpétuos quanto foto impressa. A mente é falha. A mente engana. A mente dilui as coisas boas e más (infelizmente, estas últimas são mais resistentes ao tempo). Fui esquecendo dos detalhes. Pormenores, como sua risada, as lentes arranhadas do seu óculos ou a barba áspera e cheia de falhas. O filme e cor favoritos, as manias que mais me irritavam, a cidade que foi palco de toda a nossa dança. A cidade cortada por cinco rios. Meu coração cortado em cinco pedaços.
Bom que o tempo passa. Que nossas cidades se separam por algo maior e mais caudaloso que cinco rios. Que as memórias se perdem num mar de neurônios. E que a felicidade que eternizamos nos fotogramas estava a salvo dos olhos do mundo e dos meus. Assim era seguro. Minha vida seguiu, perfeitamente equilibrada nos trilhos mornos da normalidade. Meus olhares digitais faziam sucesso entre os amigos. Eu fazia o que gostava pra viver. Aquilo era a vida normal, e era bom.
Num domingo de nada pra fazer, me cansei da insipidez da vida. Resolvi arrumar as caixas empoeiradas que abarrotavam meu armário. Mal empilhadas, ameaçavam desmoronar à menor corrente de ar que soprasse. Pus o vinil do cantor de voz etílica para tocar. Liguei o ar-condicionado. Seria um bom dia.
Bloquinhos rabiscados com jogos-da-velha e forcas. Crachás de eventos. Certificados e horas flexíveis. Meu Deus, como eu era excepcionalmente bom em acumular meu passado. CDs piratas dados pela amiga (ela sentia uma falta danada das mixtapes e insistia em me enviar playlists em suporte físico). Uma risada ao encontrar as fotocópias de aulas tediosas. Senti saudade do meu bom humor dos últimos anos de juventude. Era tão melhor não carregar tantos poréns no coração, ô se era!
Até que achei uma caixa. Propositalmente soterrada no fundo do armário. Sem estampas nem etiquetas. Meu coração gelou quando eu a abri e encarei o tubo de plástico e sua tampa cinzenta, solitário e acusador. Quase pedi desculpas pela negligência. Bem, o tempo já havia cuidado de mim, e afinal de contas, meu espírito de fotógrafo queria saber da qualidade daquelas fotos. Meu ego às vezes me mata.
Fui até o quartinho, nos fundos do quintal, fechei as portas, acendi a lâmpada avermelhada e me pus a trabalhar. Foram três, quatro horas tão lentas. Meu coração se enegreceu quando encarei aquele sorriso. O seu sorriso. A sua barba falhada. Seu olhar que eu nunca entendi se aprovava ou escarnecia. Sua risada. Sua voz quando me dizia “você devia expor”. Os cinco rios. Aquela cidade. Tudo. Saí daquele cômodo com o coração mais escuro que ele mesmo.
Você deve estar bem, não é? Não te falta carinho ou carnaval, pelo que vejo por aí. O que nos sobra é estrada... E olha, você estava certo. Eu realmente deveria expor. Foi o que eu fiz.  As pessoas gostaram das minhas fotos. Felizmente, souberam lidar bem com a ausência do tal botão aprovador. Me fizeram ter um pouco mais de orgulho de mim mesmo e eu me lembrei de que elogios face a face são tão melhores que um bando de joinhas digitais. Meu sorriso só se apagou quando encarei a galeria vazia, altas horas da noite, preenchida de você.

Revelar aquele filme foi a pior melhor ideia que já tive. Pus em quase todo lugar a foto mais bonita que eu fiz: você olhando pra mim. Você me encarava de todos os cantos da galeria e aquilo doeu. Porque havia sido felicidade... E havia sido bom.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Inverossímil

“Nossa, você é quase um déjà vu”, ele disse às costas dela, enquanto subiam no ônibus. Ela franziu as sobrancelhas e olhou pra trás, na dúvida se era com ela que falavam, percebeu o olhar sorridente, sorriu também. “Você diz isso pra toda menina que sobe no ônibus com você?”, respondeu. “Somente para as que parecem saber o que é um déjà vu”, ele alcançou o último degrau. Ela riu. Tirou o porta-níqueis da bolsa, catou algumas moedas, encostou o corpo à roleta. “E eu sou um déjà vu do quê?”, ela com a mão estendida para o cobrador. Ele apoiou o queixo em uma das mãos (a outra tateava a pasta à procura de dinheiro), fingiu pensar. “Infância... Retorno...”, disse. Ela já avançava para os fundos do ônibus, as mãos agarrando firmemente as barras de apoio. Parou no terceiro passo, olhou para trás, sorriu. Ele sorriu de volta, o motorista acelerou, a lei da inércia o jogou contra a catraca, outra lei o puxou para o chão. Alguns passageiros riram. Ela riu. Adiantou-se para ele e estendeu a mão. “Opa!”, “Mas que mico...”, “Todo mundo cai, relaxe”, “Ninguém nesse mundo cai mais que eu”, “É uma história de amor entre você e Newton”, “Odeio física”, “Mas por que eu sou um déjà vu de retorno e infância?”. Ele se empertigou. “É o que era a minha infância. Cheiro de lavanda,  banhos demorados...”. “Então é esse tipo de déjà vu?”, ela arregalou os olhos. “Brincadeira”, caíram na gargalhada e se recompuseram ao perceber o olhar atento de alguns passageiros. Ela caminhou para os fundos. Ele não se mexeu. “Você não vai sentar?”, ela perguntou, indicando dois lugares vazios com a cabeça”. “Achei que você não ia me convidar”, “Precisei. Você é muito ousado com desconhecidas, não podia deixar aquelas senhoras” ela apontou para as passageiras “à mercê da sua companhia nefasta”. Riram, sentaram-se lado a lado. “Mas elas não parecem um déjà vu”, ele sorriu e a encarava por trás das lentes. “Bom pra elas”, “Me desculpe, você se parece muito a menina que eu espiava tomar banho no quintal da casa vizinha”, “Isso é bom?”, “Bem, ela era linda”, “Sua infância deve ter sido agitada”, “Minha fase fálica durou mais tempo que o normal”. Ela riu. “Eu sei bastante sobre sua infância, mas não sei seu nome”, “É um nome estúpido”, “Luna”, “Wagner”, “Wagner?”, ela riu. “Eu disse que era estúpido”, ele deu de ombros. “Não é estúpido. É alemão. É meu compositor favorito”. Ele ajeitou os óculos, surpreso. “Richard Wagner?”, “Esse mesmo... Por quê a surpresa?”, “Ou não entendo de música clássica, ou ninguém cita Wagner como preferido”, “Você não entende de música clássica”, “Não entendo mesmo”, “E não merece se sentar ao meu lado”, “???”, “É. Sou xiita”. Ele franziu as sobrancelhas e ela sustentou-lhe o olhar por alguns segundos até cair num riso fácil. “É brincadeira...”, ela apoiou o rosto numa das mãos e o encarou com uma espécie de sarcasmo enigmático nos olhos. Ele sentiu um formigamento nas costas. Piscou. Chovia. “E por que falávamos de Richard Wagner num ônibus se tem tantas coisas mais banais para discutirmos... Como o clima?”, ele para apontou as gotas que desciam pela janela. Ela desenhou com o dedo no vidro embaçado. “D... E... J... A...”, ela puxou os dois acentos, um sobre cada vogal, “V... U. É por isso”. “Uma familiaridade estranha”, “Mais ou menos assim”, “Tem certeza que você não é a filha da minha vizinha da infância?”, “Crianças são muito iguais”, “Tem certeza?”, “Meu ponto é o próximo”, dois olhares vacilantes. O ônibus acelerou. “E então?”, “...”, “Tchau?”, “Não é todo dia que a gente encontra um déjà vu”, “Onde é seu ponto?”, “Pode ser o próximo. Ou” ele apontou pela janela um letreiro luminoso vários metros à frente “pode ser aquele ali também”. Ela sorriu. “Infância, não é?”, e ele sorria também, “Sim”, “Retorno, não é?”, “Absolutamente”, “Um banho demorado...”, “Sim”. Ela colou os lábios ao ouvido dele e falou baixinho “Tinha um furo no muro do quintal... Às vezes, dava pra te escutar”.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Memória meio ébria

(Duas coisas que não faço há tempos: postar no Tecedor e escrever poesia. Aliás, esta é a primeira poesia que posto no blog, como fruto de um desafio textual da minha amiga Rhuana, com o tema 'álcool'. Não me orgulho muito dos meus textos em verso, mas é o que tem pra hoje. Espero que dona Rhu não se importe com a paráfrase com o título do blog dela, o Memórias Meio Sóbrias, que eu recomendo, aliás.)




Hás de perdoar o meu amor atípico?
Hás de perdoar, amor, a exaltação
Se foi teu elevado teor etílico
Que embriagou-me em pedir perdão?

Ponho na conta do meu triste vício
A ébria sede de te amar, e a ânsia
Mas se me ofereci inteira em sacrifício
Que caia a culpa em tua inoperância

Perdoarás, amor? Não peço tanto
Só que me ponhas no lugar de outrora
Perdoarás, amor? Que desencanto
Que seja eu a suspirar agora!

Perdoarás, amor, esta bandida
que te enlaçou como estivesse louca?
a jovem insana, tola, atrevida
que ensandeceu por não alcançar-te a boca?

Perdoarás, amor?



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Requiem

(Esse texto é o resultado do desafio interblogs que fiz com mais três amigos blogueiros. É baseado no conto Strange Gifts, de Rafaela Albuquerque. A citação em itálico é do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde). 
 

“Ela não pode estar morta”, ele pensou. “Ela não pode estar morta e ainda assim ser tão linda. Não... Ela está dormindo... Ela só está dormindo”.

Ele estendeu a mão para a aquarela. Dourado, azul, negro, verde, branco, vermelho. Encarou a tela vazia. Com as mãos trêmulas, ele começou a desenhar o contorno com lápis fino. A cada detalhe que lhe vinha à memória, seu traço ganhava mais precisão. Ele tinha que fazer aquilo, ou enlouqueceria.

Branco para a pele. A pele... Ele se lembrava de como ela parecia translúcida quando saía ao sol. Um halo a envolvia e sua imagem dançava no ar, etérea, um misto de anjo e miragem. Ele se lembrava de como o sorriso dela tinha o poder de fazer o mundo girar ao contrário e de como tudo que era vivo prendia a respiração para vê-la dormir. Ele se lembrava do cheiro e do gosto e do toque e da maciez. Ele lembrava bem demais...

Dourado, o dourado dos cabelos. As pinceladas deslizavam pela tela, criavam texturas, tomavam forma e ele lembrava. Ela nunca cortava os cabelos. Eles lhe caíam pelas costas em ondas, como um véu, ou uma coroa lhe dada por direito pela própria natureza. Ela costumava dizer que queria ser Rapunzel e o perguntava, com a voz doce, se ele a buscaria na torre mais alta. “Na torre mais alta do castelo mais alto”, ele respondia. A lembrança o fez rir.

 “Ela só está dormindo”.

Os olhos. Os olhos tinham aquele tom de verde que nenhuma tinta do mundo era capaz de reproduzir. Não quando ela conseguia imprimir no olhar a intensidade que quisesse. Escuro, quando ela tinha medo; azulado, quando ela estava curiosa; líquido, quando ela se contorcia sob ele, quase todas as noites em que estiveram juntos. Não... Os olhos dela eram impossíveis de pintar. Ele mergulhou o pincel na tinta e desenhou com cuidado o côncavo dos olhos, os cílios compridos, a sobrancelha delicada. Os olhos dela estavam fechados.

 “Mas ela está dormindo”.

O vestido. Negro. A cor que ela mais detestava. O castigo por tê-lo enlouquecido. O contorno dos seios, os mesmos seios que ele flagrou entre as mãos e os lábios de outro homem, os corpos tão enroscados que era impossível de dizer quem era quem. E diante da exclamação de mágoa, decepção e fúria que ele soltara em reação à cena que vira sem querer, ela apenas o encarou, com frieza nos olhos verdes mais lindos que ele havia visto, e o mandou embora.

Como se nada houvesse acontecido. Como se o que havia sido deles fosse nulo. Ele se lembrava do fogo que havia se irradiado do seu coração para seus braços, lembrava do impulso que o tomou como se um demônio se apropriasse das suas vontades, e lembrava de como quis feri-la, arranhá-la, machucar aquela pele alva, quase imaculada. Ele quis fazê-la sofrer e ao mesmo tempo quis tê-la de volta, com o desespero de quem se agarra à vida. Tudo o que recebeu foram aqueles olhos frios e sem amor. E a frase, que ela retirara de um livro qualquer – como se, mesmo no auge da humilhação, ele não merecesse nada que viesse genuinamente dela. Inexorável feito um final.

Há sempre algo de ridículo nas emoções de quem deixamos de amar.

Ele lembrava e pincelava o quadro com violência. Mergulhou o pincel na tinta vermelha e abriu nela feridas, fê-la sangrar o sangue que ele sentia jorrar de si mesmo. No fim, quando o relógio revelava que ele havia passado ali a noite inteira e quando os primeiros tons de lilás começavam a se misturar ao negro do céu, ele a olhou, como se encarasse a própria redenção. Era aquele o seu castigo: jazer para sempre congelada no seu traço vingativo, num estado de animação suspensa entre a vigília e a morte.

Uma lágrima pareceu escorrer do rosto dela. Ele levou a mão até os olhos e percebeu que também chorava. Pegou o quadro, ainda úmido de tinta, e beijou sua pintura na testa.

— Durma bem — sussurrou.
 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A quatro mãos


(texto escrito em parceria com Rhuana Caldas)




A cabeça dela não estava ali, comigo. Eu o sabia e, sem querer, nem entender as razões, sofria por isso. Não desgostava dela, na verdade, era justamente o contrário – achava-a uma graça. Viva, extremamente honesta com os próprios sentimentos, alerta, ideias simples e fortes. Por ser daquele jeito descomplicado, era fácil estar ao lado dela, fácil querer ouvi-la e querer ser ouvido por ela. Não, eu gostava dela. Mas não estava apaixonado. Não pensava nela como a mulher que era.
Feia? Muito menos. Incomum, eu diria. Exótica (ela ficava possessa quando a descreviam assim – “eufemismo pra horrorosa, não é?”). Ela era sedutora sem se esforçar para isso. Talvez o melhor sobre ela fosse o fato de ela desconhecer a força do próprio olhar, que às vezes carregava uma languidez que ela, na verdade, nem sentia.
Não sei porque nunca a olhei direito. Talvez fosse a força da amizade, que ligava meus instintos quando ela, distraída, me olhava de lado, com uma das mãos afastando o cabelo do rosto. Não sei, não sei.
Durante algum tempo, naquela noite, ela estava como sempre, falante, alegre, descontraída. Começou quando ela trocou o Martini por cerveja, depois por vodca, aguardente, tudo o que surgiu na mesa. Então eu vi o olhar mais triste que já havia visto nela, até então.

Meus dedos dormiram. Ele me observou agitá-los, um a um. E seus olhos continuaram em mim quando deixei cair o braço ao lado do corpo, vencida pelo formigamento. E mesmo quando recostei a cabeça no espaldar da cadeira e fechei os olhos, num pretenso cochilo, seu olhar elétrico não me abandonou.
— Qual o seu problema? — perguntei, evitando olhá-lo.
— Nenhum. Só estou te olhando. Não posso?
— Se você tiver algum motivo forte, talvez.
— Vai controlar pra onde eu olho, agora?
— Escuta – fechei os olhos num suspiro demorado, minha cabeça rodava. – Por que você não vai divertir as outras pessoas da festa? Como costuma fazer.

Na defensiva. Eu ri. Ela vestia uma blusa diáfana, de tecido fino, pela qual eu podia entrever uma das alças do sutiã caída sobre seu ombro. Resisti ao impulso de endireitá-la porque, para isso, precisaria roçar os braços no colo dela – o colo branco que estava à mostra – e não, não poderia fazê-lo, em nome da amizade e dos bons costumes. Eu gostava dela, mas não estava apaixonado.
— Porque todos parecem bem. Porque todos estão focados em uma bebida, apenas. Estão rindo e cantando, mas você não está — respondi. Ela repetiu o gesto que sempre me forçava a lembrar da tal distância segura – afastou do rosto aquela basta cabeleira cacheada. Impedi meus olhos de escorregarem para o seu colo exposto.
— O que importa eu estar bem ou não? — ela respondeu, azeda.

— O que importa eu estar bem ou não? — invadiu-me de palavras e olhares, aquilo que me irritava. Ele sabia. Mas especialmente hoje, irritava-me mais que o normal. Irritava-me seu cabelo liso que lhe cobria os olhos quando abaixava a cabeça, irritava-me quando estalava os dedos um a um, irritava-me o castanho forte de seus olhos e sua barba cuidadosamente deixada por fazer. Meus olhos pesaram ainda mais.
— Estou cansada — mal me interessou sua resposta. Deitei a cabeça em seu ombro.

Céus, ela estava tão bêbada. Deitou a cabeça em meu ombro e eu pude sentir o volume de seus cachos comprimidos contra meu pescoço. Tinham cheiro de vodca misturado a algo doce, não sei bem o quê – nasci com o olfato precário. Meu forte sempre foi a pele. A dela, gelada, contrastava com a minha, eu, quente do álcool e da fumaça dos cigarros que vinham do canto mais escuro do bar. O colo, fatalmente próximo. Desviei os olhos da curva dos seios que se pronunciou de leve quando ela envolveu o corpo com os braços.
— Você está fria.
— Eu estou morrendo — falou baixinho num tom sarcástico e riu, levantando a cabeça, olhando-me de baixo. Um calafrio estranho subiu pela minha coluna até minha nuca. Ela se pôs a rir baixinho, depois se envolveu num riso descontrolado, deitando-se em meu colo.  As pessoas nos olhavam.  Abraçou-me.

Eu senti seu coração martelando dolorosamente a caixa torácica. Meu batom vermelho sujou sua camisa quando virei a cabeça, na altura de seu umbigo. E o olhar dele não me abandonou por um segundo sequer. Aquilo me divertia, ver cada um dos seus músculos retesar-se, ver a força que ele fazia para manter os olhos nos meus e não em alguma outra parte do meu corpo que estivesse exposta demais.
— Eu não te amo — sussurrei.

— Eu não te amo — e gargalhei o mais mortalmente que pude, olhando em seus olhos de café. Estava bêbada. — Você está bêbada e as pessoas estão olhando.  Venha — envolvi seus braços em meus ombros e a segurei no colo, levantando-a. Gostaria de ter rebatido, mas um eu-não-te-amo engasgou na garganta e eu o engoli com saliva, desceu feito vodca pura. Levei-a para o carro e a deitei no banco de trás.
— Vou te levar pra casa.
Fiz menção de me levantar, mas ela me envolveu pelo pescoço antes que eu pudesse pensar.
— Nós não nos amamos — ela disse devagar, com aquele jeito arrastado dos bêbados.
Era verdade, não nos amávamos. A cabeça dela não estava ali, comigo. Eu não estava apaixonado, mas por alguma razão aquele amor ausente me tinha gosto de cerveja barata. Eu não a amava porque não a via como a mulher que ela era, não me atinha às curvas de seus quadris nem aos seios que só de olhar eu tinha certeza que me encheriam a mão. Não, eu gostava dela. Mas não estava apaixonado.

— Nós não nos amamos — repeti, e de repente não me irritavam mais seus olhos tão próximos aos meus. Não me irritava mais o fato de que costumava pensar mais que agir. Não me irritava mais que se importasse comigo.
Eu o via debruçado sobre mim, resistindo ao meu abraço. Conseguia ver seu peito pelos primeiros botões abertos da blusa branca. Moreno. Seus cabelos tocavam-me os olhos. Beijei-o. Beijou-me de volta. Meus dedos dormiram. Ele me observou agitá-los, um a um. Seus olhos continuaram em mim quando deixei cair o braço ao lado do corpo, vencida pelo formigamento. E mesmo quando recostei a cabeça no estofado do banco do carro, fechei os olhos e adormeci, seu olhar não me abandonou.