segunda-feira, 28 de março de 2011

Ah, se eu vou

Ela finge não querer ninguém, mas eu sei que é a mim que ela quer. Pensa que me engana, que não vejo seus olhares de súplica velada, seu jeito de quem não quer ir embora mas vai, apenas pra que eu chame de volta. E quando eu chamo, ela vem, mais altiva, uma indisfarçada vivacidade em cada passo, o sorriso dois dedos maior.

Ela acha que não percebo quando ela esquece a mão sobre a minha por segundo ou dois, até que, num ensaiado sobressalto, ri e a retira, deixando-a desprotegida e disponível sobre a coxa. Ela pensa que não sei que é pra mim cada floral estampado que ela desfila pelo calor destas ruas e cada cor que ela escolhe para estampar nos lábios. Ou que não sei que são para mim os sambinhas que ela canta no chuveiro, os trechos mais atrevidos das canções duas oitavas acima.

Tinhosa... Finge indiferença, tenta pôr um blasé não-me-importo-se-for-você-ou-qualquer-outro no olhar debochado, mas tropeça no sorriso. Não quero soar petulante nem nada assim, entendam. É que ela muda quando me vê. Meio que se ilumina, o riso vem fácil, os olhos falam. E é só comigo, mais nenhum. Ela acha que eu não percebo as venezianas da janela dela se alargarem um pouco, só um pouco, quando eu passo. Pensa que eu não a vejo suspirar na janela às onze e poucas, quando todo o bairro dorme e eu me divido entre o cigarro e o violão.

Ah, mocinha descuidada, tome tento. Tome tento, que por mais que eu saiba manter a compostura, noite dessas acabo por perder a linha. E então estarei aí, debaixo da sua janela, eu e meu violão. Só pra assegurar que mais ninguém, mais ninguém mesmo, vai merecer esse seu olhar de promessas. Só eu.



13 comentários:

Rafa disse...

Gostei da escolha de palavras, parecendo uma música, um coisa assim sem enfeites e ao mesmo tempo bem feita. Parabéns!

Uiberon disse...

Meu deus... Que lindo. Gostei do personagem. Não pude deixar de levar um sorriso ao rosto com esse texto, tão bonitinho, tão engraçadinho. Adorei Luda, lance um livro que eu compro.

Karol Coêlho disse...

Esse foi o texto mais lindo que já li em toda a minha vida... e foi escrito por uma amiga minha?

Chorei, arrepiei, me encantei profundamente...

É esse Ludmila, o melhor da minha vida e é sem brincadeiras...

Superou meus autores preferidos.

MEU DEUS!

Sem mais.

Marden disse...

Sobre esse eu já te disse.

Seu estilo melhorou bastante.

Continue assim.

Marco Fischer disse...

Adorei a atmosfera criada pelo texto, você consegue criar coisas realmente divertidas quando sai um pouco daquele tom melancólico, espero mais textos assim no futuro =)

nelson netto disse...

porra...
muito bom...
muito bom mesmo!
o texto está tão bom que começo a desconfiar que você tem um pinto no meio dessas coxas roliças.

crap disse...

o comentário do nelson é o melhor.
chego até a concordar com ele.
texto muito bem construído, muito belo, bem legal.

Anairamgui disse...

Alguns textos me põem um sorrisso ou dois na cara; os seus, três ou quatro; mas esse, foi um sorrisso constante; simples e belo...
Matou minha ansiedade por textos em alto estilo...

Camila disse...

Me lembrou uma grande escritora (:

Felipe Jalc disse...

odorei o ultimo paragrafo de um bom gosto literario imenso...
enfim... esse cara se acha. Embora que ele esteja certo, manda ele tomar logo uma atitude, se sabe e quer, ora bolas, vai lá, tira a Julieta do balcão.

Mariana Andrade disse...

Falar o que né?
Sempre em grande estilo ;)

Quero suas palavras no meu blog, apareça e observe-me :D
http://observaacoes.blogspot.com/2011/04/m.html

Nathália R. disse...

As coisas podem ser ditas de várias formas, desde as piores, até as melhores maneiras... Acho que vc conseguiu encontrar a melhor maneira possível de pôr em palavras os seus pensamentos...

Eternize-se!
http://menteternamente.blogspot.com/2011/04/mascara.html
;)

Isa Diamonds disse...

Concordando em gênero, número e grau com o Felipe: Se o cara quer, vai lá e toma pra si. Happy End.

Sempre sou muuuuucho orgulhosa dos seus textos, minha escritora favorita!

Bjos, hermana.