sexta-feira, 8 de abril de 2011

Veni, Vidi, sed non Vici

Por que a pressa, mulher? O tempo é fluido e somos nós nossos próprios prisioneiros, a carne é nosso cárcere. Que sentido há em adiantar o inevitável, se é liquido e certo que ele nos encontrará, se mal nos mexemos por arbítrio nosso, me diz? Por que a pressa?

Nós dois já misturamos, no mesmo leito, sonhos, suor e saliva. Já te invadi pele adentro, sem pensamentos outros que não você. Já enlaçamos os olhares e braços e pernas e fizemos o mundo girar na nossa métrica. Por que a pressa?

Se conheço tuas vontades e elas são irmãs das minhas, por que tanta ânsia? Desacelera, mulher. Em nada somos diferentes quando somos senhores dos nossos quereres... E meus dedos trazem impressa neles tua geografia, inteira, inexata, tão minha.

O que é o tempo pra nós, que sabemos conter o infinito em cada segundo? Sem pressa, mulher. Senta um pouco, me olha, bebe meu café. Temos o tempo que nossa vontade permitir. Esquece um pouco as minúcias, que somos criminosos mas nenhum julgamento nos cabe. E a mim, só cabe você.

Por que a pressa? Pressa é tudo o que vejo nessa selva de concreto, nesse caótico mar de luzes. Esta urbe não me alimenta, antes me vampiriza – sou mais autômato que homem. Se você me surgiu com suas cores e matizes estranhas a esta floresta de ferro e pedra, por que se apressar? Bebe uma cerveja, um conhaque, ou me bebe – tanto faz. Minha sede é outra e só morrerá, mesmo que pouco, se você estiver aqui.

Ah, mulher, minha mente tem vagado mundo afora. Achei meu lugar e a ele não pertenço – sempre externo a mim e a tudo, mero apêndice, mero fato. Eu, que amo tudo o que diz respeito ao meu exílio – e meu exílio que parece não me amar de volta.

Não estou em mim, mas você está. Não me encontro aqui, mas você me achou. Não se perca de mim, mulher. Fique aqui até que eu durma. Fique até amanhecer. Ou fique pra sempre, se quiser. Só não se apresse. A noite sequer cruzou o limiar da madrugada... Por que a pressa?


17 comentários:

crap disse...

achei bom, sensível sem que o narrador masculino seja afeminado ou coisa assim.
"Bebe uma cerveja, um conhaque, ou me bebe – tanto faz."
achei isso muito bom. mesmo.

e, afinal, pra que a pressa?

Isolda Herculano disse...

Você me fez lembrar de alguns momentos em que tudo que eu quis foi que o tempo passasse va-ga-ro-sa-men-te.

Belo texto.
Beijos.

Mariana de Andrade disse...

MEEUU DEUS DO CÉÉUU!
QUÉQUÉISSO MENINA?

Pra mim, seu texto mais lindo, EVER!

Arrepiei do início ao fim,sério.

Se pro Lipo vc é quilate, pra mim, é joia rara.

Parabéns!

Karol Coêlho disse...

Vou dizer....
o que faltava em vc era amor...
e é o que hoje esborra em seus textos... e o que me cativa.

Um melhor que o outro.

Fantástico,

Parabéns!

Anairamgui disse...

parece recortar e colar... mas vc escreve bem, e não tem como não dizer sempre que amei o texto...

dar sentimento aos personagens de uma forma tão sutil". é você"

;)

Anônimo disse...

aaee, \o
muito bem, gostei disso!
eu acho que superou muitos outros textos que você fez o/

adorei!
Beijos \o

Victor disse...

Preciso expressar minha opinião com o primeiro pensamento após a leitura: CARAIO!

É um dos textos mais sensuais que eu já li, sem dúvida.

Bote pa engendrar, Lud!

Uiberon disse...

Gostei. Mais um personagem masculino pro hall da fama -N. Imaginei um cara, um pouco mais velho, com longos cabelos e barba por fazer, usando uma camiseta de pijama pela manhã e com uma chícara na mão. Só tentando convencer uma mulher vestida de executiva a ficar mais um pouco, tomar seu café, e não enfrentar o longo e chato transito da manhã.
É a minha interpretação, e assim ela sendo, eu gostei.

Felipe Jalc disse...

A pressa é de viver, de não perder, segundo algum... A pressa é pra ser, apressa. O tempo consome, cada minuto, cada partícula, cada sentimento, o tempo é nosso maior algoz, mas só o tempo poderá nos salvar.

M.N. disse...

que rapaz mais solitário...

Marden disse...

Uia só.

Gostei do narrador. É como o Pv falou, sensivel sem se afeminado.

Ta ficando boa nisso, maninha.

Nathália R. disse...

"Achei meu lugar e a ele não pertenço"

Quantos seres deslocados já não se sentiram assim!

Adorei o texto Luud! Parabéns, mais uma vez! Continue nos prestigiando com seus escritos *-*

Cecill disse...

Lud!
Eu me arrepio com seus textos!
Acho que já lhe disse que parece que você escreve pra mim! Me enxergo tanto neles...
Agora com nossa proximidade, você já deve entender melhor o que falo quando digo isso...

"Bebe uma cerveja, um conhaque, ou me bebe – tanto faz. Minha sede é outra e só morrerá, mesmo que pouco, se você estiver aqui."

Adorei isso! *.*

Um dos melhores que você já escreveu! De coração!

Beijos divaaan! :*

Isa Diamonds disse...

Eu queria entrar na sua cabeça e pah, roubar tudo que tem lá dentro.

Eu te perdôo por escrever assim, tinhamu!

Marco Fischer disse...

Putsch, fiquei impressionado mesmo dessa vez! Escreva a mão antes sempre se o resultado é esse aí, ficou incrível! Gostei de toda a atmosfera criada pelo texto, o desenrolar fluido, e a escrita está impecável. mesmo simples, é repleto de significado e sentimento, esplêndido!

Continue me surpreendendo assim.

Paulinha Felix disse...

Menina, que texto bonito!! Vou te ler mais vezes :)

Ó, valeu pelo comentário no meu blog ^^ Fiquei curiosa para saber quem era a pessoa que conhecemos. É o Estêvão (Arte na Artéria)?

:*

Tay disse...

Você sempre me impressiona, mulher. Fico sem aparecer durante séculos no seu blog, e o primeiro texto que aparece em minha frente é justo um que me deixa arrepiada. Aliás, todos me deixaram.
Mas senti algo que diferenciou esse dos outros. Você fez algo que raramente faz, não é? Só não sei exatamente o que. XD
Enfim, tá lindo! *-*