domingo, 20 de março de 2011

Mímesis

Café bem quente, com leite cremoso e espuma nas bordas, é você. É também acordar e sentar-se à beira da cama, queixo apoiado numa das mãos, uma espécie de ‘o pensador’ sonolento. É você.

Abrir a geladeira e pousar a testa na superfície gelada por uns três segundos, enquanto o mundo não censura pela energia elétrica gasta à toa, é totalmente você. É você inclinar um pouco as costas para sacudir os cabelos, colocá-los no lugar – como se precisasse, francamente! – e tentar tocar o teto com as mãos. E também deixar as sandálias emborcadas no chão, coisa que muita gente julga chamar a morte (e você ri).

É você conversar com o teto em silêncio por minutos muitos, num alheamento de tudo e de si mesma, se Vinícius me permite a paráfrase, até que o mundo real a puxe de volta e vem a surpresa pela passagem despercebida do tempo. É você desdenhar de crenças, antigas e novas, e é você também separar o biscoito wafer em camadas antes de comê-lo.

É você abrir um documento em branco no Word e encarar a tela branca por muito, muito tempo, praguejando baixinho. É você deixar ideias fugirem. É você capturá-las de volta. E é você, embora ninguém queira admitir, ter alergia ao excesso de senso comum. É realidade demais pro teu gosto. E pro meu.

É você ser insolente nas horas mais inoportunas, em que tudo o que precisa ser dito é uma destas convenções chamadas ‘etiqueta’. É você ir até um lugar em total concentração e esquecer-se o porquê de ter ido assim que chega. É você travar alguns diálogos ocasionais com o chão. Chutar latinhas. Recolhê-las e jogá-la num lixeiro próximo (enquanto lança impropérios pouco ortodoxos ao filho de meretriz que largou lixo na rua).

É você detestar futebol e ainda assim assistir partidas entre seleções, só pra ter o que comentar em rodas de amigos. E detestar alguns dos próprios sentimentos, também. Empurrá-los para o fundo da alma. Jogar mil baús por cima. E depois retirá-los, todos, observar a pobre emoção maltrapilha e, num suspiro, colocá-la de volta no devido lugar. Só que ninguém precisa saber disso.

É você tudo isso. E acho que ando você demais. Será que, algum dia, volto pra mim? Ou melhor... Será que eu quero, bonita?

12 comentários:

Rafa disse...

Texto escrito lindamente, naquele jeito de quem faz poesia com prosa... Gostei muito mesmo, parabéns. =)

Rivison disse...

O que somos nós a não ser nossas atitudes? A eterna "mímesis do cotidiano" está bem refletida no seu texto. A imitação e a incorporação de atos repetitivos que nos tornam quem nós somos. Parabéns por tornar mais leve e bonito esse assunto tão "tenso"... rs... Bjo.

Bárbara Suellen disse...

Babei....eh capacidade lirica heim! ;)

Anônimo disse...

A rotina mais bonita que já vi. As manias mais gostosas de serem vistas. Assim fica fácil aceitar os gestos de qualquer um! Quando eu me irritar com os 'tiques' de alguém,vou pedir pra vc analisá-los e escrever sobre eles,para que eu possa me apaixonar (novamente) por todos eles.
E,sempre,escolhendo as melhores palavras e fazendo as melhores combinações.
Obrigada por me fazer lembrar,num só texto, de todos aqueles que amo.Pois vi em cada ato,alguém.Pai,mãe,irmão,amigo,amado,euzinha,até. E vc,claro,que é impossível se libertar dos textos.
Sabe o que eu vejo? O texto na vertical.Cada frase formando uma grade.E você por trás delas.Por vezes bem escondida na penumbra dessa cela, noutras, fazendo questão de se postar onde os raios de luz incidam com maior intensidade.

Tá,tá.Paro por aqui. Engraçado que não consigo postar no meu blog,né?Mas um comentário de nada vira um texto do tamanho do mundo -.-'

Je t'aime.

(Mari)

Isa Diamonds disse...

Ê, orgulho meu. Criança que sabe brincar com as palavras.

Lindamente.

Beijos, te amo.

Mitch! disse...

Ficou lindo mesmo.
;*

Anairamgui disse...

Achar as palavras certas e pô-las nos lugares mais improváveis, é você.

Felipe Jalc disse...

"Assim fica fácil aceitar os gestos de qualquer um! Quando eu me irritar com os 'tiques' de alguém,vou pedir pra vc analisá-los e escrever sobre eles,para que eu possa me apaixonar (novamente) por todos eles."

Não preciso falar mais nada... a não ser, é você, só você.

Marden disse...

Muito foda.
Com certeza seu melhor até agora.

Marco Fischer disse...

Original e esplendidamente escrito, Lud. Interessante como você sempre consegue criar novas maneiras de colocar sentimentos no papel, esse é um talento que você não apenas tem como sabe aproveitar.

nelson netto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
nelson netto disse...

é você essa vontade de escrever que bateu agora.
muito foda.