segunda-feira, 9 de março de 2009

Mãe, beijei a esmo.

Poucos garotos na vida, afora seus amores juvenis e unilaterais. A moça, em seu vestido vermelho e não tão mulher quanto seu corpo a fazia parecer, não esperava nada de extraordinário naquela festa. Conversar aos berros com a irmã, por conta da música alta. Bebericar os refrigerantes, ela não era dada a aventuras etílicas. Acrescentar alguns gramas ao que ela chamava de "tecido adiposo maldito" comendo salgadinhos, coisas de festa.
A música era horrível. Ao menos, aos seus ouvidos. Os acordes distorcidos pelas enormes caixas de som a atordoavam, e ela ponderava consigo mesma "quem, em sã consciência, gosta de ouvir isso?". Até que, enfim, cedeu aos apelos da irmã, e, nuns passos tímidos que eram mais uma tentativa de imitar o gingado insinuante das moças ao redor, foi à pista de dança. "Não fui feita pra isso", ela constatou, ao sentir os pés, metidos em saltos enormes, incomodarem e doerem.
Então, quando a derrota já era dada por certa e ela começava a dirigir-se para alguma cadeira para atender à súplica dos pés inchados, um rapaz tocou sua mão. Ela ergueu as sobrancelhas para ele, num claro e mudo "sim?", que ele replicou convidando-a para dançar.
- Eu não sei dançar!
- Claro que sabe.
Dois passos pra lá, três pra cá, e ela, atordoada, notou que conhecia o perfume que emanava do rapaz. "Diacho de cheiro que me persegue!". Trocaram, em poucas palavras, as informações triviais e obrigatórias a todo início de diálogo. Nome, idade, ocupação. Ela, os olhos baixos, pensava numa maneira de escapar dali, escapar do estranho que até era simpático, porém usava aquele perfume que a perturbava imensamente. Há meses e meses aquele cheiro lhe corroía o juízo. E agora, após tantas fugas, ela estava ali, as narinas encostadas em ombros que tinham o mesmo odor da sua insônia!
- Eu disse que você sabia dançar, menina.
Ela riu seu riso discreto em resposta, o sorriso de quem não sabe o que responder. E o sorriso dele afrouxou. Seus olhos se estreitaram. Ela conhecia aqueles sintomas. E antes que pudesse decodificá-los de todo, o rapaz beijou-a. O primeiro beijo a esmo de toda a sua vida. Coisa de festa.

7 comentários:

Lonely Wolf disse...

Que coisa hein, maninha.
Mas bem poderia ser pior.
Ele poderia ser comunista.

Eduardo Leite disse...

é a vida, né?

Eduardo Leite disse...

(ou apenas um pequeno pedaço dela)

Sarinha disse...

eu até acho que até posso conhecer essa historia.
quanto ao perfume... o cheiro proprio deixa o perfume proprio. o de cada um, sabe?!

lindo o texto! ;*!

Lah. disse...

Passa a ser engraçado qnd a coisa de festa se torna uma coisa constante. Só não é tão engraçado qnd se torna uma coisa unilateralmente constante. Aí dói.

=*

Nelson André disse...

"E agora, após tantas fugas, ela estava ali, as narinas encostadas em ombros que tinham o mesmo odor da sua insônia!"


imagem foda.

e como diz laís: abaixo constantes unilaterais.

Biel disse...

Terceira Pessoa rulez.
O blog tá muito tr00, com todas essas crônicas em português de quem leu o manual de como incrementar o seu texto com palavras difíceis. aeahuheauehuehuyaeyu
:*

Eu sei cada detalhe do episódio ocorrido!