sábado, 23 de abril de 2011

Em suma

Você morre.

Triste é te ver ir-se assim, em silêncio. Seria melhor se você partisse sangrando, como eu mesma sangrei. Se tingisse de vermelho todo o caminho que fez questão de manter imaculado, com o cuidado de percorrer apagando as próprias pegadas após cada passo. Mas não – você emudece e morre.

Parece que nós dois nem fomos dois. Parece que nem te deixei cicatrizes, estas de que estou repleta. Parece que eu te fui um disfarce. Será que fui?

Me fere esse silêncio de sempre. Agride meus tímpanos, fermenta-se nos meus instintos. Eu queria te gritar, gritar. Te entregar todas as culpas que não pertencem a ninguém, sequer existem. Te rasgar a garganta com esse vazio que você me impõe e no qual me imerge. Mas você morre. Quieto, nulo, morre. Teu pulso não me pulsa mais. Teus dedos já não me tateiam. Você já não me retém o rosto na boca. Você morre.

Te imitando no silêncio, eu vou te deixar ir, sim. E nem precisa pagar a conta de luz, que não quero você aqui a cada lâmpada que eu acender. Já basta você nos lençóis, na garagem e no jardim. Já basta a sua morte, em mim.

Você tira a própria vida. Morre pra reviver n’outro lugar. Te enterrarei sem transigência. Sei que não cabem queixas onde não existiram promessas, mas mortes são assim – cavam esse oco amargo na alma e, antes de cura, o tempo se faz algoz. E você morre quieto. Sem saber que morre. Querendo, talvez, morrer.

Você morre e eu nem chorei.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Veni, Vidi, sed non Vici

Por que a pressa, mulher? O tempo é fluido e somos nós nossos próprios prisioneiros, a carne é nosso cárcere. Que sentido há em adiantar o inevitável, se é liquido e certo que ele nos encontrará, se mal nos mexemos por arbítrio nosso, me diz? Por que a pressa?

Nós dois já misturamos, no mesmo leito, sonhos, suor e saliva. Já te invadi pele adentro, sem pensamentos outros que não você. Já enlaçamos os olhares e braços e pernas e fizemos o mundo girar na nossa métrica. Por que a pressa?

Se conheço tuas vontades e elas são irmãs das minhas, por que tanta ânsia? Desacelera, mulher. Em nada somos diferentes quando somos senhores dos nossos quereres... E meus dedos trazem impressa neles tua geografia, inteira, inexata, tão minha.

O que é o tempo pra nós, que sabemos conter o infinito em cada segundo? Sem pressa, mulher. Senta um pouco, me olha, bebe meu café. Temos o tempo que nossa vontade permitir. Esquece um pouco as minúcias, que somos criminosos mas nenhum julgamento nos cabe. E a mim, só cabe você.

Por que a pressa? Pressa é tudo o que vejo nessa selva de concreto, nesse caótico mar de luzes. Esta urbe não me alimenta, antes me vampiriza – sou mais autômato que homem. Se você me surgiu com suas cores e matizes estranhas a esta floresta de ferro e pedra, por que se apressar? Bebe uma cerveja, um conhaque, ou me bebe – tanto faz. Minha sede é outra e só morrerá, mesmo que pouco, se você estiver aqui.

Ah, mulher, minha mente tem vagado mundo afora. Achei meu lugar e a ele não pertenço – sempre externo a mim e a tudo, mero apêndice, mero fato. Eu, que amo tudo o que diz respeito ao meu exílio – e meu exílio que parece não me amar de volta.

Não estou em mim, mas você está. Não me encontro aqui, mas você me achou. Não se perca de mim, mulher. Fique aqui até que eu durma. Fique até amanhecer. Ou fique pra sempre, se quiser. Só não se apresse. A noite sequer cruzou o limiar da madrugada... Por que a pressa?


segunda-feira, 28 de março de 2011

Ah, se eu vou

Ela finge não querer ninguém, mas eu sei que é a mim que ela quer. Pensa que me engana, que não vejo seus olhares de súplica velada, seu jeito de quem não quer ir embora mas vai, apenas pra que eu chame de volta. E quando eu chamo, ela vem, mais altiva, uma indisfarçada vivacidade em cada passo, o sorriso dois dedos maior.

Ela acha que não percebo quando ela esquece a mão sobre a minha por segundo ou dois, até que, num ensaiado sobressalto, ri e a retira, deixando-a desprotegida e disponível sobre a coxa. Ela pensa que não sei que é pra mim cada floral estampado que ela desfila pelo calor destas ruas e cada cor que ela escolhe para estampar nos lábios. Ou que não sei que são para mim os sambinhas que ela canta no chuveiro, os trechos mais atrevidos das canções duas oitavas acima.

Tinhosa... Finge indiferença, tenta pôr um blasé não-me-importo-se-for-você-ou-qualquer-outro no olhar debochado, mas tropeça no sorriso. Não quero soar petulante nem nada assim, entendam. É que ela muda quando me vê. Meio que se ilumina, o riso vem fácil, os olhos falam. E é só comigo, mais nenhum. Ela acha que eu não percebo as venezianas da janela dela se alargarem um pouco, só um pouco, quando eu passo. Pensa que eu não a vejo suspirar na janela às onze e poucas, quando todo o bairro dorme e eu me divido entre o cigarro e o violão.

Ah, mocinha descuidada, tome tento. Tome tento, que por mais que eu saiba manter a compostura, noite dessas acabo por perder a linha. E então estarei aí, debaixo da sua janela, eu e meu violão. Só pra assegurar que mais ninguém, mais ninguém mesmo, vai merecer esse seu olhar de promessas. Só eu.