quarta-feira, 13 de maio de 2009

Despejo.

(Post-réplica - ou continuação - do post chamado Boas-vindas, da mesma autora, e inspirado na canção "A Traição", de JH Azevedo).

Dia à morte. Céu tingindo-se de noite e estrelas. O cenário era o mesmo de todos os dias, e quando abri a porta, lá estava ela - a indesejada. Mas quem sorria era eu. Um sorriso cheio de cor.
— Olá. — enunciei, o sadismo alto e claro na minha voz.
Ela não sorria. Pelo contrário, estampava nos olhos o maior ódio que lhe era possível, o maior ódio de que alguém era capaz. Com razão. Apesar da minha natureza passiva e resignada, havia momentos em que eu simplesmente me cansava de toda aquela amarga autocompaixão que eu era especialista em sentir e decidia passar uma borracha nos garranchos que eu chamava, genericamente, de passado. Ela sabia disso. Sabia reconhecer o ânimo renovado em meu rosto. O que não era difícil, visto que na presença dela, eu não estava muito aquém da doença, constantemente com uma expressão de quem sente um fedor bem embaixo do nariz.
— Quem é? — ela perguntou. Na certa referia-se à sua substituta, à mulher que faria de mim um homem menos solitário, como sempre acontecia. Só que dessa vez as coisas eram diferentes.
— Não é. — respondi, o sorriso ainda largo em meu rosto. — Dessa vez, não é ninguém, minha cara. Dessa vez você vai embora porque eu estou cansado, apenas.
— Não minta pra mim!
— Você é a pessoa a quem eu sou mais sincero nesse mundo. E não porque eu queira. — eu já não sorria. — Simplesmente não consigo esconder de você as verdades que até de mim mesmo tento omitir.
Ela levantou-se. Andava em círculos, num gesto explícito de nervosismo. Era, de fato, bela. Quando eu não tinha que me consumir por estar fadado àquela lúgubre companhia, podia enxergar sua graça, sutil, quase cruel. Controverso que ela não me parecesse assim tão bonita quando vinha pra ficar.
— Não teime em me deixar! — ela gritou. — Quem é que te acolhe quando não te resta nada?
— A Esperança.
— Não me venha falar de Esperança. Você, que é pessimista por excelência. Há muito tempo está divorciado dessa... Dessa... Dessa mentira!
Suspirei. Fato que passei algum tempo separado de Esperança. Ela me era sinônimo de dor-de-cabeça, às vezes. No entanto, noites atrás, ela procurou-me, dizendo não suportar mais minha insônia e pedindo-me uma chance. Não fosse meu desespero por minha atual (e temporária) cônjuge, não sei se a teria ouvido. Talvez tivesse. Ela também me rendia bons frutos, preciso ser justo.
— Mentira ou não, estar com ela me era mais prazeroso que estar com você. Entenda, Solidão. Dessa vez não é ninguém. Dessa vez sou eu mesmo. — encerrei.
Ela partiu, inconformada. Na pressa, deixou entreaberta a porta. Vi um olho tímido me observando pela fresta e sorri.
— Entre —convidei.
A dama que entrou era a mais bela de todas as minhas ocasionais companheiras. Eu esperava, sinceramente, que ela ficasse muito, muito tempo comigo. Talvez ficasse. Era mais fácil quando a união era tão fraternal. Seu nome? Auto-estima.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fugaz.


Ela fechou a porta do quarto com estrondo, largou a mochila num canto, olhou-se no espelho. Seu reflexo devolveu o olhar mais exultante que os últimos meses haviam visto. Não conseguiu reprimir o grito que a alegria a forçou a empurrar pra fora da garganta.

- Yeaaaaaaaaaaaaaaaaah, baby!!

Os vizinhos provavelmente imaginaram prêmios na loteria, promoção no emprego, algo do gênero. Se conhecessem bem a garota do 203, saberiam que ela extraía felicidade do mínimo. Muita felicidade. Era o caso.

- Ele me sorriu, ele me sorriu.

E, embora esse mínimo pareça estúpido, estampou nos lábios da moça um sorriso sem prazo de vencimento.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O preço que se paga.

Ah, infortúnio. Não poderiam ter-me construído uma morada mais insalubre. Aqui é escuro, úmido, apertado. Mal posso me mexer. Mas é o preço que se paga.

É quente, aqui. Apesar disso, minhas mãos estão insuportavelmente frias e rígidas. Como tudo em mim, afinal. Meu corpo não parece reagir a esse ambiente. Sinto-me adormecida, por completo, como se uma anestesia geral me houvesse sido aplicada.

Sequer me brota algum sentimento. Meu coração não pulsa, não bombeia para o meu ser nenhuma espécie de emoção. Já não sei o que é raiva, ódio, amor, compaixão, nada, nada. Parece que me esqueci de como se sente. Só sei o que é indiferença. Nesta, sou perita.

Esqueci-me também de como se respira. Minhas narinas estão imóveis. Meu peito não arfa. Já estou acostumada à escuridão, embora esteja aqui há poucas horas. E, mesmo que não estivesse, teria uma eternidade para isso.

Estou condenada à inércia e ao breu. Estou ainda mais sujeita à ação do tempo. Estou vinte e três gramas mais leve, embora não aparente. Estou fadada ao esquecimento. E condenada à eternidade. É o preço que se paga por estar a sete palmos da superfície, encimada por um "aqui jaz" de mármore. É o preço que se paga por morrer.