sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Singela canção para Ana

Sai do quarto, Ana, e vem ver o mundo que pode te fazer feliz. É verão, faz calor, a cidade se enfeita de sol e de gente e só você não vê. O mundo quer te ver, Ana, eu quero te ver também.
Você já viu a forma como a lua se reflete no mar? Parece um espelho, Ana. Parece um espelho e o vento salgado que vem da praia envolve o nosso corpo e esquece na gente o cheiro do mar. E as ondas, Ana, você já ouviu? As ondas que quebram na areia e a gente não sabe se é fúria ou carícia? Está tudo lá, Ana, e lá estão todas pessoas a ver e cheirar e sentir e só você se enclausura nesse castelo que me priva de você e que te priva de si mesma.
As pessoas, Ana. Os rostos que se fundem num mar colorido de gente, distinto e indistinto. São tantas nuances e formatos, Ana, quem me dera memorizá-los. Vez em quando eu pesco um sorriso gratuito ou outro, gente que sorri só por sorrir e gente que passa o sorriso adiante e assim o dia ri mais. Aí o riso chega em mim e eu choro, Ana. Eu choro por não poder repassá-lo a você.
Sai desse quarto, Ana, vem ser da gente. Vem ser só sua ou de quem quiser, mas vem ser. Enclausurada você não é, Ana, enclausurada você não vive, só existe. Sai daí e vem ver as feridas abertas da cidade, os esgotos e a miséria, a música e a dança e tudo o mais que existe além da janela. Vem ver a gente que te ama e que de amor não depende, mas se alimenta. Vem ver a gente que quer te ver. Porque com você aí a vida continua, Ana, segue o mesmo rumo de sempre, no mesmo andar morno de sempre... Mas com você, Ana, ela para pra te ver passar.

E sem isso, Ana, não dá pra viver sem. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Perdão você

(post fruto do meu 'limbo textual', onde eu guardo as coisas que termino mas não acho que devam ser postadas. A não ser que haja um bloqueio criativo, como é o caso agora. Agradeço à moça que me emprestou sua história e dedico a toda e qualquer pessoa que já se sentiu assim. Afinal, quem nunca?)

Me perdoe se gosto das coisas claras, das cobranças bem expostas, das responsabilidades traçadas previamente. Me perdoe se eu ajo de acordo com o ambiente, se me apaixono se me dão chance, se quero quando me querem também. Peço desculpas por ter sido eu mesma, espontânea, por ter fluído como o vento que me deixou na sua porta. Rogo perdão pelo silêncio que adotei quando percebi que de você não teria mais que a língua. Peço perdão pelo silêncio e distância que surgiram quando você os fez surgir primeiro.
Me perdoe por ter falado de quem me tirava o sono quando você falou de quem tirava o seu. Me perdoe por ter feito de você um pequeno porto seguro onde ancorar todos os meus poréns. Me perdoe por ter insinuado algo mais no nosso prosseguir. E também peço perdão por ter inibido toda e qualquer ideia de ‘algo mais’ diante da sua indiferença.

Me perdoe por ter posto água nessa sopa conspiratória que cozinha na sua mente. Me perdoe se te fiz sentir uma peça, coisa que você não era, mas devia ser. Agora, eu me redimo. Pronta pra te ver reduzir-se ao nada.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Com a luz

(pro @eduardoleite, que me emprestou palavras e uma história. Seu Marcelo Camelo também, algumas. Pouquinhas. E Rodrigo Amarante, o tal cantor de voz etílica).

De tudo o que havíamos sido, só restou um rolo de filme por revelar.
Lembro que ele achava engraçada essa minha nostalgia analógica, de querer registrar tudo em negativos e revelar depois, mesmo que só pra mim. “Por que você não expõe?”, ele me perguntava, e eu dava de ombros. Acho que eu tinha medo. Medo da fugacidade dos olhares digitais. Será que as pessoas entenderiam? Será que saberiam guardar o mesmo silêncio daquelas fotografias, escritas só com luz e perpetuadas em papel fosco? Será que, na falta de botões de polegares erguidos, saberiam expressar o gostar ou o não gostar?
Eu não sabia. E por não saber, guardava tudo o que via através das minhas lentes pra mim. E pra ele. Ele chegava de mansinho atrás de mim, enquanto eu mesmo admirava minha parede fotográfica – eu sem saber se gostava do que via ou se meu olhar por detrás da câmera era tão caótico quanto eu mesmo – apoiava o queixo no meu ombro, dizia baixinho “você é bom nisso, sabia?”. Eu não precisava do resto do mundo se ele sabia ler o que eu escrevia com a luz. Aquilo era felicidade, e era bom.
Bem, já não éramos mais. Estávamos protegidos pelo invólucro de plástico do filme. Escritos com luz, mas só. Que bom que pensamentos dele não eram tão perpétuos quanto foto impressa. A mente é falha. A mente engana. A mente dilui as coisas boas e más (infelizmente, estas últimas são mais resistentes ao tempo). Fui esquecendo dos detalhes. Pormenores, como sua risada, as lentes arranhadas do seu óculos ou a barba áspera e cheia de falhas. O filme e cor favoritos, as manias que mais me irritavam, a cidade que foi palco de toda a nossa dança. A cidade cortada por cinco rios. Meu coração cortado em cinco pedaços.
Bom que o tempo passa. Que nossas cidades se separam por algo maior e mais caudaloso que cinco rios. Que as memórias se perdem num mar de neurônios. E que a felicidade que eternizamos nos fotogramas estava a salvo dos olhos do mundo e dos meus. Assim era seguro. Minha vida seguiu, perfeitamente equilibrada nos trilhos mornos da normalidade. Meus olhares digitais faziam sucesso entre os amigos. Eu fazia o que gostava pra viver. Aquilo era a vida normal, e era bom.
Num domingo de nada pra fazer, me cansei da insipidez da vida. Resolvi arrumar as caixas empoeiradas que abarrotavam meu armário. Mal empilhadas, ameaçavam desmoronar à menor corrente de ar que soprasse. Pus o vinil do cantor de voz etílica para tocar. Liguei o ar-condicionado. Seria um bom dia.
Bloquinhos rabiscados com jogos-da-velha e forcas. Crachás de eventos. Certificados e horas flexíveis. Meu Deus, como eu era excepcionalmente bom em acumular meu passado. CDs piratas dados pela amiga (ela sentia uma falta danada das mixtapes e insistia em me enviar playlists em suporte físico). Uma risada ao encontrar as fotocópias de aulas tediosas. Senti saudade do meu bom humor dos últimos anos de juventude. Era tão melhor não carregar tantos poréns no coração, ô se era!
Até que achei uma caixa. Propositalmente soterrada no fundo do armário. Sem estampas nem etiquetas. Meu coração gelou quando eu a abri e encarei o tubo de plástico e sua tampa cinzenta, solitário e acusador. Quase pedi desculpas pela negligência. Bem, o tempo já havia cuidado de mim, e afinal de contas, meu espírito de fotógrafo queria saber da qualidade daquelas fotos. Meu ego às vezes me mata.
Fui até o quartinho, nos fundos do quintal, fechei as portas, acendi a lâmpada avermelhada e me pus a trabalhar. Foram três, quatro horas tão lentas. Meu coração se enegreceu quando encarei aquele sorriso. O seu sorriso. A sua barba falhada. Seu olhar que eu nunca entendi se aprovava ou escarnecia. Sua risada. Sua voz quando me dizia “você devia expor”. Os cinco rios. Aquela cidade. Tudo. Saí daquele cômodo com o coração mais escuro que ele mesmo.
Você deve estar bem, não é? Não te falta carinho ou carnaval, pelo que vejo por aí. O que nos sobra é estrada... E olha, você estava certo. Eu realmente deveria expor. Foi o que eu fiz.  As pessoas gostaram das minhas fotos. Felizmente, souberam lidar bem com a ausência do tal botão aprovador. Me fizeram ter um pouco mais de orgulho de mim mesmo e eu me lembrei de que elogios face a face são tão melhores que um bando de joinhas digitais. Meu sorriso só se apagou quando encarei a galeria vazia, altas horas da noite, preenchida de você.

Revelar aquele filme foi a pior melhor ideia que já tive. Pus em quase todo lugar a foto mais bonita que eu fiz: você olhando pra mim. Você me encarava de todos os cantos da galeria e aquilo doeu. Porque havia sido felicidade... E havia sido bom.