segunda-feira, 28 de março de 2011

Ah, se eu vou

Ela finge não querer ninguém, mas eu sei que é a mim que ela quer. Pensa que me engana, que não vejo seus olhares de súplica velada, seu jeito de quem não quer ir embora mas vai, apenas pra que eu chame de volta. E quando eu chamo, ela vem, mais altiva, uma indisfarçada vivacidade em cada passo, o sorriso dois dedos maior.

Ela acha que não percebo quando ela esquece a mão sobre a minha por segundo ou dois, até que, num ensaiado sobressalto, ri e a retira, deixando-a desprotegida e disponível sobre a coxa. Ela pensa que não sei que é pra mim cada floral estampado que ela desfila pelo calor destas ruas e cada cor que ela escolhe para estampar nos lábios. Ou que não sei que são para mim os sambinhas que ela canta no chuveiro, os trechos mais atrevidos das canções duas oitavas acima.

Tinhosa... Finge indiferença, tenta pôr um blasé não-me-importo-se-for-você-ou-qualquer-outro no olhar debochado, mas tropeça no sorriso. Não quero soar petulante nem nada assim, entendam. É que ela muda quando me vê. Meio que se ilumina, o riso vem fácil, os olhos falam. E é só comigo, mais nenhum. Ela acha que eu não percebo as venezianas da janela dela se alargarem um pouco, só um pouco, quando eu passo. Pensa que eu não a vejo suspirar na janela às onze e poucas, quando todo o bairro dorme e eu me divido entre o cigarro e o violão.

Ah, mocinha descuidada, tome tento. Tome tento, que por mais que eu saiba manter a compostura, noite dessas acabo por perder a linha. E então estarei aí, debaixo da sua janela, eu e meu violão. Só pra assegurar que mais ninguém, mais ninguém mesmo, vai merecer esse seu olhar de promessas. Só eu.



domingo, 20 de março de 2011

Mímesis

Café bem quente, com leite cremoso e espuma nas bordas, é você. É também acordar e sentar-se à beira da cama, queixo apoiado numa das mãos, uma espécie de ‘o pensador’ sonolento. É você.

Abrir a geladeira e pousar a testa na superfície gelada por uns três segundos, enquanto o mundo não censura pela energia elétrica gasta à toa, é totalmente você. É você inclinar um pouco as costas para sacudir os cabelos, colocá-los no lugar – como se precisasse, francamente! – e tentar tocar o teto com as mãos. E também deixar as sandálias emborcadas no chão, coisa que muita gente julga chamar a morte (e você ri).

É você conversar com o teto em silêncio por minutos muitos, num alheamento de tudo e de si mesma, se Vinícius me permite a paráfrase, até que o mundo real a puxe de volta e vem a surpresa pela passagem despercebida do tempo. É você desdenhar de crenças, antigas e novas, e é você também separar o biscoito wafer em camadas antes de comê-lo.

É você abrir um documento em branco no Word e encarar a tela branca por muito, muito tempo, praguejando baixinho. É você deixar ideias fugirem. É você capturá-las de volta. E é você, embora ninguém queira admitir, ter alergia ao excesso de senso comum. É realidade demais pro teu gosto. E pro meu.

É você ser insolente nas horas mais inoportunas, em que tudo o que precisa ser dito é uma destas convenções chamadas ‘etiqueta’. É você ir até um lugar em total concentração e esquecer-se o porquê de ter ido assim que chega. É você travar alguns diálogos ocasionais com o chão. Chutar latinhas. Recolhê-las e jogá-la num lixeiro próximo (enquanto lança impropérios pouco ortodoxos ao filho de meretriz que largou lixo na rua).

É você detestar futebol e ainda assim assistir partidas entre seleções, só pra ter o que comentar em rodas de amigos. E detestar alguns dos próprios sentimentos, também. Empurrá-los para o fundo da alma. Jogar mil baús por cima. E depois retirá-los, todos, observar a pobre emoção maltrapilha e, num suspiro, colocá-la de volta no devido lugar. Só que ninguém precisa saber disso.

É você tudo isso. E acho que ando você demais. Será que, algum dia, volto pra mim? Ou melhor... Será que eu quero, bonita?

terça-feira, 15 de março de 2011

Imitation of Life

De início, eu não entendi o seu olhar quando você escolheu um CD qualquer e pôs no som do carro. Uns dois segundos de silêncio, até que o aparelho, que não era dos mais novos (“hora de trocar, não acha?” “ah é, lindinha? Você vai pagar?”), começou a tocar. E nos primeiros acordes da música, eu entendi.

— Seu filho da mãe! — exclamei, arregalando os olhos.

Você riu e cantou.

Charades, pop skill, water hyacinth named by a poet... — sua voz nunca me soou ruim. Você até que era bem afinado. Mesmo cantando aquela música em questão.

— Por que você faz isso comigo, seu infeliz? — franzi o cenho. Já fazia tempo que eu não conseguia ouvir aquela música. Você era a causa. E sabia muito bem.

— Por que essa música é boa demais pra você ter alergia a ela. — você entregou, o sorriso ainda maior. — I don’t want to hear you cry...

Suspirei. Há meses não conseguia escutar a tal canção sem lembrar de chuva, muita chuva. Você parado no meio da rua, trêmulo, encharcado. E eu gritando o quanto te odiava e o quanto nunca mais queria te ver. E você respeitou meu desejo, se ‘nunca mais’ significar quatro meses de silêncio intermitente. Apaguei tudo o que dizia respeito a você da vida, instâncias real e virtual, porque até mesmo os rastros digitais, orkut, facebook, twitter, a parafernália toda, me faziam mal. Sim, porque te odiei te amando. E te amando, qualquer referência sua seria um pontapé no cotovelo, daqueles bem certeiros, na articulação.

Come on, come on, no one can see you try...

O motivo foi idiota, dizendo o mínimo. Na verdade, foi daquelas bobagens que a estupidez de gente hiperdimensiona – bobagem tão boba que fiz questão de esquecê-la. Boba e reincidente. Eu não sabia lidar com minha instabilidade de série, você, muito menos... Deu no que deu.

You’ve got it all, you’ve got it sized… — você continuou a cantar e me instigava com os olhos.

O CD que você me deu de presente – aniversário de namoro, não lembro de quantos meses (na verdade, nunca fui muito fã de comemorar os meses, vitória mesmo seria se alcançássemos a marca de anos) – ficou decidido como nossa trilha sonora de casal ‘alternativo’. Tudo bem que isso soou juvenil aos meus ouvidos, tão juvenil quanto comemorar meses de namoro, mas fazer o quê? Você estava empolgado feito uma criança e eu, caidinha por você. Que é bobo, mas tem um senso de humor agudo e a inteligência de quem leu muitos, muitos livros. Fora que a gente ria demais um da cara do outro (e das caras alheias). Enfim...

Like a Friday-fashion-show-teenager freezing in the corner… — juntei-me a você, na minha voz rouca que você definia como ‘de intérprete de bossa nova’. Eu detestava bossa nova, e você sabia (“Miúcha é a mãe!” “É um elogio, ô ignorante!”).

Trying to look like you don’t try…

E depois de todo o hiato, dois bimestres inteiros de faculdade em que eu consegui perder duas das matérias obrigatórias; várias noites insones olhando fixamente para o visor do celular, achando que a qualquer momento você ligaria; duas ocasiões em que você realmente ligou, às quatro da manhã, mas eu não tive coragem de atender porque não sabia de fato o que iria dizer; quatro encontros casuais nos locais mais inusitados, que eu passei a freqüentar justamente por não ver neles lembranças suas (o que não adiantava muito, já que não ter estado ali com você poluía o lugar inteiro de lembranças nossas)... Você me ligou em horário comercial, e eu resolvi atender.

That sugar cane that tasted good, that’s cinnamon, that’s Hollywood, come on, come on, no one can see you try...

Você quis me ver. Quis passar aqui em casa às seis. E quando senti as reações do meu corpo à sua voz – a umidade da boca fugida inteiramente pros olhos, taquicardia, tremor nas mãos – pensei, puta merda, ainda é amor. Receei que te ver talvez jogasse areia em antigas feridas, mas percebi que a alma gritava por isso. E quando a alma grita... Só pode ser saudade.

— Por que você me chamou aqui?

— Eu já disse.

— Não tente me convencer de que é por causa dessa música.

— Do CD inteiro, que sei que você quebrou num acesso de raiva...

— Quem te disse?

— Sua irmã.

— Ah.

— Eu suporto tudo. Não te ver mais, que você me odeie pra sempre e toda a eternidade por não ter te entendido como devia, que você me difame... Mas não que você deixe de ouvir esse álbum do R.E.M. É bom demais.

— Você esperou quatro meses pra me dizer isso?

— Ahn? Tá... Tem o adicional de que eu te amo e tudo o mais, mas faz tempo que eu desisti de tentar porque a gente tem se ignorado, né? Encontros, ligações... Nada deu muito certo, então...

— ...

— Tava doendo, sabe. Você não pode me culpar nem me acusar de covarde. Tava doendo e eu achei melhor tentar te esquecer.

That’s who you are, that’s what you could...

Fiquei muda até o refrão. Que cantei, sorrindo acanhada, e você sorriu de volta. A música estava bem alta, mas eu pude jurar ouvir teu coração martelando numa velocidade de doer, ou talvez fosse o meu próprio. Num assomo de coragem, nos beijamos – não sei de quem foi a iniciativa, quem beijou quem primeiro. Mas seus lábios tinham o gosto de sempre, trident de canela, e toda a falta que eu senti de você me acometeu de uma vez.

— Ah — você disse ao meu ouvido, quando nos separamos — você devia ouvir a versão acústica dessa música... É sensacional.

…come on, come on, no one can see you cry.