domingo, 28 de fevereiro de 2010

Justitia

É tão injusto minha felicidade repousar em mãos alheias.

Se as coisas fossem do jeito que deveriam ser, eu seria a responsável por tudo ao meu respeito. Meus sorrisos, meus medos, minhas tristezas, meus cuidados, minha segurança, minhas aflições. Eu, e somente eu, resolveria tudo.

Eu seria a força motriz da minha felicidade. Saberia os exatos recantos onde ela se esconde. Saberia encontrá-la nos detalhes mais ocultos, nas incógnitas mais intrigantes. E ela seria plena. Sem poréns, sem restrições.

Imaginem quantas lágrimas me seriam poupadas, quantos sonhos não me cegariam, quantas horas de sono eu reaveria. Minha mente cairia nas graças da sanidade e quem sabe algum bom senso habitaria minhas decisões.

Mas, ai de mim. Sou portadora de uma máquina burra chamada coração. E a tal máquina protela qualquer razão, qualquer sanidade, qualquer bom senso, qualquer amor próprio, qualquer tudo, quando cisma em ter alguém.

E então não durmo; e então eu sonho; e então me aflijo; e então machuco o silêncio das minhas madrugadas com o som de um choro confuso; e então eu...

E então eu vejo a poesia em tudo. E então eu visito mundos dentro deste mesmo mundo. E então, só então, eu me sinto viva.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Paladar

“Inverossímel tem gosto de manga”.

Ela gostava da palavra, mas detestava manga. Tentou soletrá-la devagar, cada sílaba dançando em sua língua, pra tentar atenuar o gosto. Impossível. Era sempre manga.

Quem sabe outra palavra... Ela consultou a mente, à procura das palavras mais exóticas e que lhe soavam bonitas. Desenxabido. De-sen-xa-bi-do. Hmmm! Algo crocante. Nozes? Castanhas? Ela não sabia, mas o gosto lhe agradou. Poderia passar o dia inteiro murmurando desenxabido. De-sen-xa-bi-do. Nozes, definitivamente.

Muitos a olhavam e torciam a boca num explícito desdém. “Olha a menina estranha”, murmuravam, o rosto traduzindo escárnio e até algum receio. Ela sabia disso. Estranha tinha gosto de repolho. O que não era bom. Mas a quase hostilidade das pessoas não a feria mais. A solidão não era tão má companheira. Solidão tinha gosto de ameixa.

Ana vivia sozinha a murmurar pelos cantos, às vezes, fazia careta, noutros momentos, sorria e estampava no rosto um imenso prazer. “Acham que eu sou louca”, ela confabulava consigo mesma. “Acham que eu sou louca porque falo sozinha. Mas eu sou uma sinestesia ambulante”.

Quando algum corajoso aventurava-se à companhia de Ana, ela quedava-se apreensiva. Nunca se sabia que palavras escolher. E se seu novo companheiro se metesse a falar “crise”, “política” ou “bolsa”? Aquelas palavras tinham um gosto acre que fazia arderem os olhos de Ana. E então, sem querer, ela perdia seu ex-futuro-quase-amigo, que ia embora ofendidíssimo pelas caretas da moça.

Só existia uma palavra que mudava de gosto.

Amor. Às vezes amor tinha gosto de sonho. Ana tinha muita sede quando falava dele. Mas o mundo parecia perder a gravidade (que tem gosto de calda de pudim) as cores apareciam como que realçadas.

E havia o amor sabor entranhas. Ana não tinha opção senão regurgitar quando este permeava seus pensamentos – e sua língua. A gravidade triplicava. O mundo se afogava num abismo monocromático. E Ana chorava.

Ana sentia o gosto das palavras, mas às vezes só o que queria sentir era o gosto das suas lágrimas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Valsa dos Sonhos Tortos

Fim, ele disse. Fim, eu concordei. E atalhei que o fim dele era diferente do meu. Meu fim não permitia concessões. Era absoluto. Senti a vontade dele vacilar e meu íntimo espelhava o mesmo quadro. Não era aquele fim que eu queria. Na verdade nenhum fim chegava perto do que eu queria, porque eu não queria fim nenhum. Mas se fim era o consenso, que fosse do meu jeito.

Findamos. Ele se foi, triste como quem acaba de decretar o fim de algo. Eu fiquei, triste como quem acabou de ouvir o decreto da própria morte. E o expulsei da vida. Mas não de mim. Em mim ele ficou e eu me pus a contar o tempo feito compassos de valsa, um dois três, um dois três. O tempo descompassou, meu coração perdia a velocidade. Comecei a pensar se o fim dele se estenderia a mim. Se ele podia nos findar e tentar outros inícios, por que eu não conseguia findá-lo dentro do coração?

Um dois três, um dois três.

Uma pausa de mil compassos, por favor.

Já não havia mais acordes praquela valsa desajeitada. E olha que eu a considerava minha masterpiece. Mas o compositor sabe quando tem de parar, quando as dissonâncias fazem doer os tímpanos e quando as repetições criam em qualquer ouvinte o desejo do silêncio. Escrevi a nota final e mudei de partitura. E de clave.