sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A caneta, o papel e o desengano

E eis mais um tropeço da mocinha transparente. Não que eu não esteja acostumada, acreditem, esta é a minha rotina desde antes de eu perceber o poder mortífero deste músculo involuntário que pulsa, dizem, do lado esquerdo da caixa torácica. Mas não deixo de me incomodar a cada vez que preciso limpar toda a bagunça. Estar habituada a ser eu mesma não significa que eu goste disso.

Mas você também não colabora, não é? Será que você podia fazer-me o favor de virar esses olhos pr'outro lugar? Não, olhar pessoas é uma coisa normal, mas o seu olhar, em questão, é um não sei o quê de falsas promessas e blefes que não estou acostumada a desacreditar.

Você sempre parece sincero assim?

Ei, eu não estou magoada. Chateada, talvez, frustrada, sempre, vou até anotar essas rimantes e compor um poema sobre isso, depois. Magoada eu não estou. Você pode parar de se preocupar, por favor? Ser adorável, na presente situação, não ajuda muita coisa.


A vida é feita disso. Corações quebram aqui, outros ali, ao mesmo tempo em que nos machucam, machucamos também. Assim segue esse mundo velho, essa tragicomédia que vá lá, tem sua poesia. É por causa disso que pessoas como eu vêm chorar suas palavras num pretenso anonimato que, cedo ou tarde, cai por terra. Por causa disso existem poetas e compositores. Torna tudo mais bonito. Dor de amor no coração dos outros e refresco.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Battleships

(Baseado na música homônima da banda Travis)

Do que entendemos bem é o desperdício, meu amor... Só disso.

Por que ao invés de travarmos essa discussão, de tecermos acusações com um ímpeto assustador, tirado sabe-se lá de que recanto do corpo e, depois de tudo, chorarmos lágrimas exaustas mais por atirar (feito projéteis) nossa mágoa um no outro que por real vontade de derramá-las, você simplesmente não me leva pra casa e diz que esse é o preço que pagamos por misturar nossas vidas?

Mas não... Você proclama sua capacidade de estar sempre certo e a gente perde um tempo que não tem. Essa luta é vã e não faz sentido, meu amor. Se há uma guerra entre nós dois, não há como haver vitórias – porque a tua derrota é a minha e vice-versa, assim deveria ser. Por que ao invés de toda essa saliva gasta à toa, você simplesmente não me deita ao teu lado e me diz que não consegue entender por quê não me deixa?

Você não entende que é nas tuas mãos que está a calmaria dessa tempestade? Que nas tuas mãos está a paz, a guerra, a incansável arte de me fazer te querer? Que estou eu, nas tuas mãos? Mas você não sabe o que dizer. E nessa de procurar as palavras certas, ou as mais letais, estraga tudo. Antes que eu esteja a milhas daqui, me leva pra casa. Diz que não me suporta, mas que é assim, insuportavelmente, que você precisa de mim.

Anda, me leva pra casa. Me mostra essa tua capacidade de querer tudo ao mesmo tempo em que encontra a felicidade no nada, no fazer nada. Me olha com esses olhos de insônia e me atira na face que eu não mereço nada de bom e que, por isso, nós nos merecemos. Me tateia inteira, se quiser, e brada no escuro que não há sequer um pedaço meu que não tenha tuas digitais impressas.

Antes que, nesse rio amargo, sejamos dois navios de guerra, afundando, agora ou nunca, antes que pareçamos mais náufragos que desbravadores, mais mortos que vivos, mais ódio que amor. Antes que seja tarde demais e os navios se quedem submersos no nosso ego apaixonado. Anda, me leva pra casa, como a estrela ferida do filme... Porque eu sei viver sem você, mas não gostaria de me submeter a isso. Porque eu não te suporto e é por isso que te amo tanto.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fac-simile

É que ele não gosta de sentir. Começa tudo achando que não conseguirá terminar. Duvida da própria capacidade de cumprir promessas. Detesta demonstrar fraquezas, ainda que saiba ser dono de uma bela e humana coleção delas. Teme a solidão e finge amá-la. Tem os objetivos muito bem traçados na cabeça, mas é seduzido facilmente por muitos outros e esquece os antigos na memória. Não é facilmente impressionável e por vezes flagra-se num mudo desejo de ser mais ingênuo, mais crédulo. Desgosta de coisas demais pra idade. Detesta magoar pessoas, age sempre com um cuidado milimétrico para não fazê-lo e ainda assim, o faz. Tem medos e não sabe como encará-los. Foge do que o incomoda. Defende veementemente suas crenças e rebate, com a mesma veemência, suas descrenças. Idealista até onde a lei faculta. Não acredita em si mesmo. Ama mais pessoas do que gosta de admitir. Não fala de sentimentos. Não ouve música romântica. Nega a própria sensibilidade. Tenta parecer sisudo, mas é traído pelo carinho que carrega nas mãos. Prefere fingir que não sabe dos sentimentos que provoca. Só chora escondido. Gosta da escuridão. Tem pavor dos próprios erros e prefere fingir que não os cometeu. Instável. Imprudente. Imaturo. Inconstante. Tem medo de assumir riscos. Não sustenta certezas. Quebra mais corações do que gosta de admitir. Cobre-se de uma modéstia que não tem. Finge ser o que não é, se assim puder conquistar a quem quer. Finge o quanto pode e o quanto não pode. Esconde-se sob uma armadura frágil e prefere permanecer alheio ao mundo real. Inconseqüente. Alheio. Conveniente. Intempestivo. Dependente. Frio. Insensível. Covarde. Relutante.

Ele é tudo isso, talvez seja mais, talvez finja mais. Ele é tudo isso e ao seu pescoço deveria estar amarrada a corda-sentença, culpa, irrestrita, indubitável...

Por alguma razão, não consigo encerrar este julgamento da forma que a razão exige. Algo nos olhos dele implora anistia, me revela um pouco de tudo o que, embora eu negue, eu quis ser. Vejo em tudo uma rebeldia que me açoita, um desprendimento que quis ter com todos os errantes que ousaram incluir-me em seu itinerário. De uma forma de outra, ele carrega tanto de mim quanto eu dele.

Talvez eu tenha errado. Talvez não seja ele o réu deste júri. Talvez ele seja eu. Ele foi o que eu permiti que fosse. E pelo poder que me foi concedido, eu me declaro...


(Por força da necessidade: este texto não se refere, sob forma alguma, a algum personagem da vida 'real', muito menos o eu-lírico. Tratam-se de metáforas, fictícias, e qualquer semelhança é mera coincidência).