domingo, 8 de novembro de 2009

Causa e efeito

Faz tempo que “nós dois” não existimos mais. Me são raros pensamentos de você ou de algo relacionado ao que fomos. “Nossas” canções voltaram a ser somente canções, que já dediquei a outros ‘alguéns’ por quem me apaixonei depois de você. Em suma, eu te esqueci.

Mas eu só te esqueci porque estou longe de você. Eu te afastei de mim pra não ter que te ver e, com isso, lembrar de tudo o que me fazia te amar.

Se eu te visse sempre, se eu permitisse que você figurasse na minha vida e na minha mente, eu iria lembrar todos os dias da sua risada que te fazia parecer uma criança e que deixava covinhas nos dois lados do seu rosto. Eu me lembraria do modo displicente com que seu cabelo anelado cai às suas costas e que sempre brigávamos quando você os cortava. Brigas de leve que acabavam em

beijos seus nos meus ombros, dizendo "seu bobo! Eles vão crescer de novo". Se eu te visse sempre, lembraria da maciez da sua pele azeitonada e de como eu gostava quando você roçava o nariz no meu pescoço. Eu me lembraria do seu olhar atrevido quando eu negava um pedido seu, e da sua insistência travessa que eliminava qualquer possibilidade de “não” das minhas ideias. Eu lembraria da sua voz rouca e grave ao acordar, que virava branda e doce quando me queria e assumia um tom quase infantil quando você não queria pensar. Eu me lembraria de como suas sobrancelhas se arqueiam num ângulo estranho quando você pensa demais. Eu me lembraria de como virávamos as noites conversando sobre coisas cada vez mais aleatórias e de como ríamos, surpresos, de nossas ideias tão loucas quanto compatíveis. Nessas horas tínhamos a certeza de

que era sorte demais termos encontrado um ao outro.

Eu me lembraria de tudo isso, me lembraria do porquê de te amar tanto e voltaria a te amar. Porque amor não acaba, só adormece – se esconde nalgum vão remoto do coração esperando a hora de arrebatar tudo para si outra vez. E outros amores acham lugar pra surgir.

Com você longe de mim, eu te esqueci. Com você longe de mim, eu não te amo. Mas só com você longe. Então é melhor que você fique onde está.

domingo, 1 de novembro de 2009

Tao

(Referências bastante claras ao fim do texto... :))


Sol.

Lua.

Dia.

Noite.

Luz.

Escuridão.

Casa.

Rua.

Vício.

Virtude.

Medo.

Coragem.

Felicidade.

Tristeza.

Monocromático.

Multicolorido.

Chão.

Teto.

Cigarra.

...?

Vamos, cigarra.

Formiga.

Bom!

Mau.

Não, não era pra você dizer o antônimo agora. Foi um elogio. Mas tudo bem, você está indo muito bem...

Obrigado. Continuamos?

Bem.

Mal. Com L.

Sul.

Norte.

Azul.

Amarelo.

Você é um oponente e tanto!

Obrigado.

Por nada... Veneno.

Cura.

Luxúria.

Castidade.

Amor.

...

O que foi? Este é um contrário óbvio, filho. Ódio.

Nem tanto, pai...

Como assim?

Eu gostava de uma menina lá da escola, sabe? A Aninha. Ela sabia disso e, para me provocar, beijou meu melhor amigo. Foi o primeiro beijo dela, pai. O primeiro beijo que ela sabia que eu queria dar nela. E agora eu a odeio.

Então. O ódio é o contrário do amor.

Não é, pai... Eu gosto dela. Apesar de odiá-la. Ela ainda tem espaço nos meus pensamentos e no meu coração, ainda que seja numa lista negra, sabe? Eu procurei no dicionário e ódio quer dizer ‘raiva inveterada e absoluta’, e é o que eu sinto, mas eu só sinto isso por ela porque eu a quero pra mim, comigo, e não posso tê-la porque ela é cruel.

E qual é o contrário de amor?

Então, pai... Eu saberei que não a amo mais quando passar por ela como se ela fosse parte da decoração. Um pedaço do ambiente. Quando ela for invisível como uma ameba. Quando eu não me importar se ela estiver mal, e ao mesmo tempo não me afetar se ela estiver bem. O dicionário diz que isso se chama indiferença. Procurei por alguns minutos até encontrar.

Você descobriu isso lendo apenas o dicionário?

Não, pai, eu descobri amando... “O dicionário nunca amou”.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ruptura.

A madrugada ia alta. Metade da cidade dormia o sono dos justos – entregues a Morfeu, à espera de, no mínimo, um sonho bom que desanuviasse seus semblantes sonolentos quando chegasse a hora de despertar. A outra metade não dormia – cantava, bebia, gritava, fumava, amava, ria, furtava, transava, cheirava, desfalecia. Perambulava. E morria.

Ele não sabia aonde ia, nem porque ia, apenas deixava o ruído dos seus passos secos e o tilintar do punhado solitário de moedas que trazia no bolso ecoarem na noite. Algumas tristezas lhe pesavam na mente. Ele esperava, com sinceridade, que uma boa dose de aguardente aliviasse o fardo.

Encontrou a moça numa das esquinas de seu caminho improvisado. Ela encolhia-se na penumbra como se quisesse passar despercebida, ou como se desejasse realmente fazer parte da paisagem e nada mais. Ergueu os olhos quando ele passou, hostil, mas baixou a vista instintivamente para a garrafa de vidro aninhada em seu colo. Ele a encarou por longos minutos antes de, com um suspiro, falar.

Eu perguntaria a você o que uma moça tão jovem faz numa rua deserta à essa hora... Mas acho que minha intromissão não me dá direito a respostas, não é?

Ela apenas envolveu a garrafa nas roupas, sustentando-lhe o olhar com obstinação. Seus olhos verbalizavam o que o silêncio da rua traduzia – ele não era bem-vindo ali. No entanto, o escuro e as circunstâncias sopraram no rapaz alguma insolência no juízo. A noite ia avançada; a rua era pública; a jovem era bonita – ainda mais com toda aquela raiva estampada nos olhos; e, o mais importante, aquela garrafa continha um calmante para os nervos, uma chave para o esquecimento temporário dos problemas que faziam dele um sonâmbulo-insone-insano.

Sabe ele falou, acostando-se ao muro baixo, em frente à ela está uma bela madrugada. Eu pretendia comprar um bom litro de cachaça e tentar afogar as minhas mágoas... Mas encontrei você, sozinha, encolhida, com uma garrafa no colo. Acho que é uma noite bonita demais pra você passá-la sozinha, não é?

Silêncio.

Ah, Deus. Mais uma madrugada, mais um monólogo. Ao menos, dessa vez não falarei com as paredes... Terei alguém de verdade. Talvez eu pareça menos autista falando sozinho com uma moça.

Ela riu. Sua risada era quase um paradoxo – tão sem alegria que soava como um lamento.

Você não vai parecer autista, mas vai parecer idiota.

Então você vai fazer um favor à minha reputação e vai conversar comigo?

Por que eu faria isso? É madrugada. Não tem ninguém na rua.

Talvez pelo meu magnetismo, ou minha simpatia...

Ou pela sua impertinência, correto? a nota de irritação na voz dela era menos audível agora.

Eu diria pela minha insistência. Ou pela sua educação refinada.

Você supõe coisas demais. ela desviou os olhos do chão para o rosto dele, por um momento, e depois para o céu.

Os olhos da moça passaram a ostentar uma apreensão triste. Ela se mexeu e a garrafa escorregou de seu colo, fazendo um ruído metálico ao aterrissar na calçada.

Cuidado com isso... A uma hora dessas, é ouro líquido, sabe? falou ele, observando-a.

Ela mirou a garrafa, cujo líquido balançava ao sabor do impacto recente.

Talvez não seja... Eu achei que fosse, mas talvez... ela balbuciou, a voz fraca.

Não me diga que você é iniciante! ele exclamou, sorrindo, adiantando-se para a garrafa.

Não!! Eu não sou iniciante. Eu só... Estou esperando.

Hm. Esperando. Seja feita a vossa vontade, então. ele devolveu a garrafa para a jovem, que voltou a agasalhá-la nas roupas.

Silêncio.

— Por que você está aqui?

— Para esquecer.

— Esquecer?

— Cada noite, tento esquecer cada dia. É uma lógica simples. — ele sorriu, amargurado.

— E ineficaz, pelo que eu vejo.

— Mas eu sigo tentando. Não tenho nada a perder.

— Sendo assim...

— E você? Por que decidiu recorrer à madrugada?

— Não sei. Pra fugir, eu acho.

— Ótimo... Resumindo, somos dois covardes, não? — ele deu uma sonora gargalhada. — Um tenta esquecer, outra tenta fugir... E no fim... — o sorriso dele esmoreceu — sabemos que é inútil.

Ela acariciou, inconscientemente, a garrafa embrulhada em suas vestes. “Talvez não seja tão inútil assim pra mim”, pensou. “Talvez os meus meios de fugir sejam melhores que os seus meios de esquecer... Mas será que eu tenho que escolher esse caminho?”.

Ela sentia a vontade vacilar. Havia se refugiado ali por ter perdido tudo o que lhe tivera

significado – família, namorado, amigos, casa. Era culpada e por isso escolhera, sem hesitar, a desistência. E, no entanto, agora, sentia cada vez mais vontade de conversar com aquele estranho; confidenciar-lhe segredos, saber-lhe os motivos. Sentia-se tentada a adiar seus propósitos, ou desistir deles. Começava a pensar se realmente havia desejado aquilo ou

se tudo não passava de um capricho imediatista. E, por fim, julgou-se boba pelos desejos infantis que conjurava na mente e no coração.

Ele, por sua vez, esqueceu. No caminhar das horas, ali, conversando com a bela desconhecida, esqueceu de tudo o que o fazia querer embriagar-se de aguardente. Os olhos tristes da moça assumiram o primeiro plano em sua atenção, a voz baixa e grave com que ela falava, as mãos torcendo-se, nervosas, no colo dela. Atração irremediável.

A única coisa que ele não esqueceu foram seus impulsos levemente alcoólatras.

O sol não era nada mais que uma linha alaranjada no horizonte quando eles silenciaram. Ela, numa letargia sonolenta, apoiava a cabeça sobre um dos ombros, os olhos semicerrados. Ele aproximou-se, prevendo a falta de reações da companheira de serão, sorriu de leve e beijou-a nos lábios. Depois, com a delicadeza de quem manuseia porcelana, ele tirou a aguardente das vestes dela, abriu a garrafa e tomou um longo gole. Apertou os olhos.

Ela só despertou horas depois. Deparou-se com a garrafa aberta, na horizontal, envolta por uma poça de líquido transparente – aguardente e o veneno que ela escolhera para trilhar o caminho sem volta da desistência – e o gentil andarilho que conhecera naquela madrugada estendido ao seu lado. Morto.