quarta-feira, 10 de julho de 2013

Memória meio ébria

(Duas coisas que não faço há tempos: postar no Tecedor e escrever poesia. Aliás, esta é a primeira poesia que posto no blog, como fruto de um desafio textual da minha amiga Rhuana, com o tema 'álcool'. Não me orgulho muito dos meus textos em verso, mas é o que tem pra hoje. Espero que dona Rhu não se importe com a paráfrase com o título do blog dela, o Memórias Meio Sóbrias, que eu recomendo, aliás.)




Hás de perdoar o meu amor atípico?
Hás de perdoar, amor, a exaltação
Se foi teu elevado teor etílico
Que embriagou-me em pedir perdão?

Ponho na conta do meu triste vício
A ébria sede de te amar, e a ânsia
Mas se me ofereci inteira em sacrifício
Que caia a culpa em tua inoperância

Perdoarás, amor? Não peço tanto
Só que me ponhas no lugar de outrora
Perdoarás, amor? Que desencanto
Que seja eu a suspirar agora!

Perdoarás, amor, esta bandida
que te enlaçou como estivesse louca?
a jovem insana, tola, atrevida
que ensandeceu por não alcançar-te a boca?

Perdoarás, amor?



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Requiem

(Esse texto é o resultado do desafio interblogs que fiz com mais três amigos blogueiros. É baseado no conto Strange Gifts, de Rafaela Albuquerque. A citação em itálico é do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde). 
 

“Ela não pode estar morta”, ele pensou. “Ela não pode estar morta e ainda assim ser tão linda. Não... Ela está dormindo... Ela só está dormindo”.

Ele estendeu a mão para a aquarela. Dourado, azul, negro, verde, branco, vermelho. Encarou a tela vazia. Com as mãos trêmulas, ele começou a desenhar o contorno com lápis fino. A cada detalhe que lhe vinha à memória, seu traço ganhava mais precisão. Ele tinha que fazer aquilo, ou enlouqueceria.

Branco para a pele. A pele... Ele se lembrava de como ela parecia translúcida quando saía ao sol. Um halo a envolvia e sua imagem dançava no ar, etérea, um misto de anjo e miragem. Ele se lembrava de como o sorriso dela tinha o poder de fazer o mundo girar ao contrário e de como tudo que era vivo prendia a respiração para vê-la dormir. Ele se lembrava do cheiro e do gosto e do toque e da maciez. Ele lembrava bem demais...

Dourado, o dourado dos cabelos. As pinceladas deslizavam pela tela, criavam texturas, tomavam forma e ele lembrava. Ela nunca cortava os cabelos. Eles lhe caíam pelas costas em ondas, como um véu, ou uma coroa lhe dada por direito pela própria natureza. Ela costumava dizer que queria ser Rapunzel e o perguntava, com a voz doce, se ele a buscaria na torre mais alta. “Na torre mais alta do castelo mais alto”, ele respondia. A lembrança o fez rir.

 “Ela só está dormindo”.

Os olhos. Os olhos tinham aquele tom de verde que nenhuma tinta do mundo era capaz de reproduzir. Não quando ela conseguia imprimir no olhar a intensidade que quisesse. Escuro, quando ela tinha medo; azulado, quando ela estava curiosa; líquido, quando ela se contorcia sob ele, quase todas as noites em que estiveram juntos. Não... Os olhos dela eram impossíveis de pintar. Ele mergulhou o pincel na tinta e desenhou com cuidado o côncavo dos olhos, os cílios compridos, a sobrancelha delicada. Os olhos dela estavam fechados.

 “Mas ela está dormindo”.

O vestido. Negro. A cor que ela mais detestava. O castigo por tê-lo enlouquecido. O contorno dos seios, os mesmos seios que ele flagrou entre as mãos e os lábios de outro homem, os corpos tão enroscados que era impossível de dizer quem era quem. E diante da exclamação de mágoa, decepção e fúria que ele soltara em reação à cena que vira sem querer, ela apenas o encarou, com frieza nos olhos verdes mais lindos que ele havia visto, e o mandou embora.

Como se nada houvesse acontecido. Como se o que havia sido deles fosse nulo. Ele se lembrava do fogo que havia se irradiado do seu coração para seus braços, lembrava do impulso que o tomou como se um demônio se apropriasse das suas vontades, e lembrava de como quis feri-la, arranhá-la, machucar aquela pele alva, quase imaculada. Ele quis fazê-la sofrer e ao mesmo tempo quis tê-la de volta, com o desespero de quem se agarra à vida. Tudo o que recebeu foram aqueles olhos frios e sem amor. E a frase, que ela retirara de um livro qualquer – como se, mesmo no auge da humilhação, ele não merecesse nada que viesse genuinamente dela. Inexorável feito um final.

Há sempre algo de ridículo nas emoções de quem deixamos de amar.

Ele lembrava e pincelava o quadro com violência. Mergulhou o pincel na tinta vermelha e abriu nela feridas, fê-la sangrar o sangue que ele sentia jorrar de si mesmo. No fim, quando o relógio revelava que ele havia passado ali a noite inteira e quando os primeiros tons de lilás começavam a se misturar ao negro do céu, ele a olhou, como se encarasse a própria redenção. Era aquele o seu castigo: jazer para sempre congelada no seu traço vingativo, num estado de animação suspensa entre a vigília e a morte.

Uma lágrima pareceu escorrer do rosto dela. Ele levou a mão até os olhos e percebeu que também chorava. Pegou o quadro, ainda úmido de tinta, e beijou sua pintura na testa.

— Durma bem — sussurrou.
 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A quatro mãos


(texto escrito em parceria com Rhuana Caldas)




A cabeça dela não estava ali, comigo. Eu o sabia e, sem querer, nem entender as razões, sofria por isso. Não desgostava dela, na verdade, era justamente o contrário – achava-a uma graça. Viva, extremamente honesta com os próprios sentimentos, alerta, ideias simples e fortes. Por ser daquele jeito descomplicado, era fácil estar ao lado dela, fácil querer ouvi-la e querer ser ouvido por ela. Não, eu gostava dela. Mas não estava apaixonado. Não pensava nela como a mulher que era.
Feia? Muito menos. Incomum, eu diria. Exótica (ela ficava possessa quando a descreviam assim – “eufemismo pra horrorosa, não é?”). Ela era sedutora sem se esforçar para isso. Talvez o melhor sobre ela fosse o fato de ela desconhecer a força do próprio olhar, que às vezes carregava uma languidez que ela, na verdade, nem sentia.
Não sei porque nunca a olhei direito. Talvez fosse a força da amizade, que ligava meus instintos quando ela, distraída, me olhava de lado, com uma das mãos afastando o cabelo do rosto. Não sei, não sei.
Durante algum tempo, naquela noite, ela estava como sempre, falante, alegre, descontraída. Começou quando ela trocou o Martini por cerveja, depois por vodca, aguardente, tudo o que surgiu na mesa. Então eu vi o olhar mais triste que já havia visto nela, até então.

Meus dedos dormiram. Ele me observou agitá-los, um a um. E seus olhos continuaram em mim quando deixei cair o braço ao lado do corpo, vencida pelo formigamento. E mesmo quando recostei a cabeça no espaldar da cadeira e fechei os olhos, num pretenso cochilo, seu olhar elétrico não me abandonou.
Qual o seu problema? perguntei, evitando olhá-lo.
Nenhum. Só estou te olhando. Não posso?
Se você tiver algum motivo forte, talvez.
Vai controlar pra onde eu olho, agora?
Escuta – fechei os olhos num suspiro demorado, minha cabeça rodava. – Por que você não vai divertir as outras pessoas da festa? Como costuma fazer.

Na defensiva. Eu ri. Ela vestia uma blusa diáfana, de tecido fino, pela qual eu podia entrever uma das alças do sutiã caída sobre seu ombro. Resisti ao impulso de endireitá-la porque, para isso, precisaria roçar os braços no colo dela – o colo branco que estava à mostra  e não, não poderia fazê-lo, em nome da amizade e dos bons costumes. Eu gostava dela, mas não estava apaixonado.
— Porque todos parecem bem. Porque todos estão focados em uma bebida, apenas. Estão rindo e cantando, mas você não está — respondi. Ela repetiu o gesto que sempre me forçava a lembrar da tal distância segura – afastou do rosto aquela basta cabeleira cacheada. Impedi meus olhos de escorregarem para o seu colo exposto.
— O que importa eu estar bem ou não? — ela respondeu, azeda.

— O que importa eu estar bem ou não? — invadiu-me de palavras e olhares, aquilo que me irritava. Ele sabia. Mas especialmente hoje, irritava-me mais que o normal. Irritava-me seu cabelo liso que lhe cobria os olhos quando abaixava a cabeça, irritava-me quando estalava os dedos um a um, irritava-me o castanho forte de seus olhos e sua barba cuidadosamente deixada por fazer. Meus olhos pesaram ainda mais.
— Estou cansada — mal me interessou sua resposta. Deitei a cabeça em seu ombro.

Céus, ela estava tão bêbada. Deitou a cabeça em meu ombro e eu pude sentir o volume de seus cachos comprimidos contra meu pescoço. Tinham cheiro de vodca misturado a algo doce, não sei bem o quê – nasci com o olfato precário. Meu forte sempre foi a pele. A dela, gelada, contrastava com a minha, eu, quente do álcool e da fumaça dos cigarros que vinham do canto mais escuro do bar. O colo, fatalmente próximo. Desviei os olhos da curva dos seios que se pronunciou de leve quando ela envolveu o corpo com os braços.
— Você está fria.
Eu estou morrendo  falou baixinho num tom sarcástico e riu, levantando a cabeça, olhando-me de baixo. Um calafrio estranho subiu pela minha coluna até minha nuca. Ela se pôs a rir baixinho, depois se envolveu num riso descontrolado, deitando-se em meu colo.  As pessoas nos olhavam.  Abraçou-me.

Eu senti seu coração martelando dolorosamente a caixa torácica. Meu batom vermelho sujou sua camisa quando virei a cabeça, na altura de seu umbigo. E o olhar dele não me abandonou por um segundo sequer. Aquilo me divertia, ver cada um dos seus músculos retesar-se, ver a força que ele fazia para manter os olhos nos meus e não em alguma outra parte do meu corpo que estivesse exposta demais.
— Eu não te amo — sussurrei.

— Eu não te amo — e gargalhei o mais mortalmente que pude, olhando em seus olhos de café. Estava bêbada. — Você está bêbada e as pessoas estão olhando.  Venha — envolvi seus braços em meus ombros e a segurei no colo, levantando-a. Gostaria de ter rebatido, mas um eu-não-te-amo engasgou na garganta e eu o engoli com saliva, desceu feito vodca pura. Levei-a para o carro e a deitei no banco de trás.
— Vou te levar pra casa.
Fiz menção de me levantar, mas ela me envolveu pelo pescoço antes que eu pudesse pensar.
— Nós não nos amamos — ela disse devagar, com aquele jeito arrastado dos bêbados.
Era verdade, não nos amávamos. A cabeça dela não estava ali, comigo. Eu não estava apaixonado, mas por alguma razão aquele amor ausente me tinha gosto de cerveja barata. Eu não a amava porque não a via como a mulher que ela era, não me atinha às curvas de seus quadris nem aos seios que só de olhar eu tinha certeza que me encheriam a mão. Não, eu gostava dela. Mas não estava apaixonado.

Nós não nos amamos repeti, e de repente não me irritavam mais seus olhos tão próximos aos meus. Não me irritava mais o fato de que costumava pensar mais que agir. Não me irritava mais que se importasse comigo.
Eu o via debruçado sobre mim, resistindo ao meu abraço. Conseguia ver seu peito pelos primeiros botões abertos da blusa branca. Moreno. Seus cabelos tocavam-me os olhos. Beijei-o. Beijou-me de volta. Meus dedos dormiram. Ele me observou agitá-los, um a um. Seus olhos continuaram em mim quando deixei cair o braço ao lado do corpo, vencida pelo formigamento. E mesmo quando recostei a cabeça no estofado do banco do carro, fechei os olhos e adormeci, seu olhar não me abandonou.