sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mútuo

Era um par de horas, mas poderia ser uma vida. Não era amor, mas poderia ser melhor, mais que isso, até: uma conseqüência. Sem punições à vista, sem nada que ofuscasse a importância daquele agora.

Eles estavam frente a frente. Entre goles discretos, monossílabos e meios sorrisos, algo muito maior se insinuava, cuja medida exata eles não tinham – não precisavam ter, na verdade – mas podiam sentir e reproduzir em cada gesto, mínimo que fosse.

Conheciam-se, mas fingiram-se estranhos um ao outro. Achavam melhor redescobrirem-se devagar, feito crianças ignorantes da mesquinhez adulta de viver em guerra contra o tempo. Não havia necessidade de pressa, já que nenhum dos dois tinha a mínima intenção de fugir. Por que não a rendição, lenta e completa, se ali havia tanto a saber? O tempo, junto a tudo o mais que não fosse eles dois, fora relegado ao patamar das coisas desimportantes.

Então”, ele disse, com os olhos.

Então?”, ela respondeu, com o olhar.

...?”.

Eu temo, e você sabe”.

Você teme, e eu sei... E temo também”.

Tememos”.

Mas quero”.

Queremos, então”.

E então...?”.

Por que havia tantos senões diante daquele querer de duas vias? Era apenas questão de reinventar o mundo que impossibilitava aquele recém-nascido ‘nós dois’. Ele já parecia, em seu mutismo, refeito. Ela, no entanto, ainda desconhecia a bravura de despir-se dos anos. E muitos foram os minutos de silêncio, torcer de mãos e olhares atravessados. Por muito tempo, ela preferiu não notar o clima que se desenhava nítido ao seu redor. Tentou pôr a seu favor o desaviso – por desconhecer que caminho tomar – até que ele calou num beijo aquela boca muda de porquês.

Foi quando o renovar de ideias não pareceu das empreitadas mais difíceis.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Aos meus

Não me digam pra não me apaixonar. É o convite pra que eu me apaixone de fato. Às vezes, eu nem chego a cogitar paixão – meu sorriso é apenas o enlevo de sintonizar as ideias em par, leve pela grandeza do que dois juntos podem fazer. Às vezes é só a pele saciando a fome. Até que alguém mencione a palavra-sentença. Sabem a teimosia da mente de fazer o que lhe proíbem? Aí, me apaixono.

Também não me peçam cuidado ou controle. A pequenez das regras em nada se aplica às imprevisíveis paixões. Se não for pra ser louca, de que adianta? Razão e paixão não andam juntas e a vida seria insossa não houvesse doidices a cometer de vez em quando. Amar não é seguro, mas é necessário.

Se me encontrarem enamorada, me ouçam. O sorriso será imenso e eu hei de querer dividi-lo. E caso haja dor no olhar, saibam, é que é paixão de um lado só. Então me abracem. Mas não precisam dizer que logo passa e que em breve outras insônias virão substituir a anterior. Disso tudo eu sei. Quero saber apenas que posso tomar-lhes a insanidade emprestada, só até a saudade se aquietar e minha gargalhada achar vias de voltar e soar verdadeira.

Se me virem cega de amor, não há muito que se fazer. Só não me deixem esquecer de mim. Nem de vocês. Se eu lhes virar as costas, sejam duros nas palavras e lembrem-me de quem são. Alertem-me, ameacem-me. Lembrem-me de que há certos tipos de amor mais duradouros que aqueles que ameaçam arrebatar-nos o coração e nos põem a orbitar, em presença em pensamento, em torno de uma só pessoa.

De vocês, eu quero a loucura, o avesso, a risada e os contrapontos. Quero guiá-los caso haja percalços, quero estar firme para que possam tropeçar e encontrarem uma mão estendida. Porque são vocês minhas metades encontradas ao acaso. São vocês meu porto seguro, meu equilíbrio, minha capacidade de me manter sã. Estejam por perto, que sozinha eu não me acho.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sentença

Cá estou eu, mais eu mesma que nunca, em minha redoma... Quase louca.

Nem a madrugada, nem minhas unhas, nem minhas convicções, nem nada que proclamei sólido nesta vida – essas coisas que a gente constrói na cabeça e salpica de chão, só pra não haver risco de vê-las fora do controle – nada é o bastante. Eu sou eu. E isso me enlouquece.

Às vezes me vem uma insanidade doida (perdoe-me, cara Língua) e tudo o que me resume é uma vontade de indagar ao Universo: por que tanta alma num corpo só? Mas não é questão de alma. É questão de não saber ser pela metade, ou é a patologia adolescente mais enfadonha do mundo: hiperdimensionar as coisas. Porque é isso. Se é no meu coração que se instala, me parece maior e mais intenso do que é de fato.

E o que se faz, vida? Revoga-se o direito sobre os próprios pensamentos até que alguma tsunami venha roubar-me o fôlego? É essa mesmice que me causa taquicardia, e não as emoções desmedidas. Não as estou absolvendo. Elas são verdadeiras vilãs. Vampirizam-me, parasitam-me. Mas me enchem de algo que não sei – não consigo – viver sem. São meu vício, a minha droga. São a minha maneira de sentir-me viva, inteira, completa... Livre.

Perdoem-me, que eu só sei viver de amor...