domingo, 9 de janeiro de 2011

Sentença

Cá estou eu, mais eu mesma que nunca, em minha redoma... Quase louca.

Nem a madrugada, nem minhas unhas, nem minhas convicções, nem nada que proclamei sólido nesta vida – essas coisas que a gente constrói na cabeça e salpica de chão, só pra não haver risco de vê-las fora do controle – nada é o bastante. Eu sou eu. E isso me enlouquece.

Às vezes me vem uma insanidade doida (perdoe-me, cara Língua) e tudo o que me resume é uma vontade de indagar ao Universo: por que tanta alma num corpo só? Mas não é questão de alma. É questão de não saber ser pela metade, ou é a patologia adolescente mais enfadonha do mundo: hiperdimensionar as coisas. Porque é isso. Se é no meu coração que se instala, me parece maior e mais intenso do que é de fato.

E o que se faz, vida? Revoga-se o direito sobre os próprios pensamentos até que alguma tsunami venha roubar-me o fôlego? É essa mesmice que me causa taquicardia, e não as emoções desmedidas. Não as estou absolvendo. Elas são verdadeiras vilãs. Vampirizam-me, parasitam-me. Mas me enchem de algo que não sei – não consigo – viver sem. São meu vício, a minha droga. São a minha maneira de sentir-me viva, inteira, completa... Livre.

Perdoem-me, que eu só sei viver de amor...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Mea culpa

Sortudos mesmo são aqueles que possuem um vício a envenenar suas veias. Invejo-os todos. Ébrios, loucos, indecisos, perdidos, invejo-os. Invejo a eles que mascaram a própria realidade em sua versão inebriada. Que fogem de seus erros em goles longos e desmedidos. Invejo seu escapismo, invejo sua covardia. Invejo os que erram por dias e noites e vidas, até que a mente responde ao que invade o corpo – e eles caem por terra, esquecidos, inconscientes, plenos de amnésia e torpor.

Abençoados são, porque a droga lhes priva de suas bêbadas memórias.

Eu estive sóbria. E, sóbria, fui implacável. Minha mente registrou cada detalhe de meu vil crime. Simples, metálico – matei e saí de olhos secos. Em minhas mãos levei apenas o peso das lágrimas que teci naquele destino. Algo dentro de mim rugiu, no desespero de emergir, mas eu o silenciei antes que ganhasse vida.

Mais tarde, sozinha diante da escuridão perplexa da minha culpa, minha máxima culpa, Engano me olhou e riu seu riso morto. Limitei-me a balançar a cabeça, em censura, e voltei meu olhar para o nada. Eu queria estar a sós com meu pecado, somente... Mas teria de esperar. Ele viera cobrar sua comissão e rir às minhas custas. Eu sabia. Não seria a primeira vez.

Ele continuou de pé, à minha frente, esperando uma palavra, um safanão, um gesto que fosse. Suspirei, vencida, e encarei minha indesejada companhia nos olhos. Ele me deu seu riso sem vida novamente e veio sentar-se ao meu lado. De presente, deu-me pesadelos.

Quando acordei, mais tarde, sufocada e angustiada por algo que não pude nomear, senti que o monstro em mim havia sumido. Meus olhos estavam molhados e percebi – havia chorado durante o sono lágrimas que não eram minhas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Whistle for the Choir

Não havia ninguém na rua, além do passado. Ninguém, além dos fantasmas bêbados dos erros alheios. Ninguém, afora ele mesmo, alma atormentada procurando um bom lugar, o mais discreto possível, para morrer... Ou para oferecer sua vida aos espectros errantes e trôpegos de seus antecessores.

Ninguém, além dela.

Mas ela, somente ele podia ver, tão sombria quanto os seres translúcidos que chamavam de lar aquele recanto esquecido da cidade. Ela o assombrava mais que seus ébrios amigos fantasmas. A eles, já estava habituado; era quase uma distração assisti-los enquanto gemiam inconformados pelo que poderia ter sido, aquela hipótese congelada pela morte. Mas a ela, ele não podia se acostumar.

A ela, nunca.

Ele não saberia precisar o que nela era pior. Sempre chegava sozinha, altiva, e tudo ao redor parecia entender e aceitar o quão superior ela era. Sim, o mundo encolhia à sua passagem, e ele não tinha opção a não ser imitar a submissão. Diminuído, sua única ação era observá-la enquanto ela, simplesmente, era.

Até que ela aproximou-se dele.

Ela não disse nada, a princípio. Em sua primeira visita, apenas deixou seus olhos estreitos percorrerem-no como quem avalia. Dois minutos sob aquele olhar fosco, que a nada deixava fugir ou transparecer, e ele viu sua liberdade escapar-lhe por entre os dedos. Já não pertencia a si mesmo. Era dela, e só dela.

Há muito ela já havia ido embora quando o sono finalmente deu as caras e, timidamente, forçou seus olhos a se fecharem. Ele podia jurar ter visto o sorriso irônico do deus do sono, antes que o cansaço finalmente o subjugasse. “Terás lindos sonhos esta noite, pobre mortal. Mas, no seu lugar, eu não desejaria acordar nunca mais”.

Sonhou com ela.

Ao despertar, ele maldisse a manhã, maldisse o sol e maldisse tudo o que não fosse ela. Errou pela cidade até que a noite se impôs. Voltou, acuado, ao seu covil, esperando-a e temendo-a ao mesmo tempo.

E ela veio.

Sentou-se ao lado dele e, por um momento, ele sentiu que a vida não era de todo má, ou tinha a obrigação de não ser. Ela existia, e se ela existia, viver por ela era lei. Não importava se tudo o que ela tinha a oferecer era um olhar condescendente que o esmiuçava e o poupava de confessar o inconfessável.

Ela sabia cada pormenor. Ela conhecia sua impotência diante dela. E ela fazia disso seu instrumento de tortura não declarada.

Veio o tempo.

Os fantasmas já não o incomodavam mais. Transparentes, fundiam-se à paisagem e ali permaneciam, mero acessório das culpas não purgadas que ele simplesmente havia desaprendido a temer. Ele não mais se perguntava qual daqueles equívocos desencarnados seria o seu assassino. Ninguém mais tinha o direito sobre a sua vida.

Só ela.